Haja coragem!

O recente artigo do Diário de Noticias assinado por Bernardo Mariano intitulado "Os Dias da Música acabaram" deve ser objeto de uma reflexão profunda. Afirmo, desde já, que concordo com tudo que ali está escrito.

Após 23 anos no Centro Cultural de Belém (17 como Diretor do Centro de Espetáculos e 6 como Vogal do Conselho de Administração) entendi dar um rumo diferente à minha atividade profissional, fechando à chave um passado do qual sinto um enorme orgulho e satisfação.

No entanto, aquele artigo suscitou uma série de questões com as quais estou absolutamente de acordo.
A Festa da Música iniciada em 2000 e dedicada a Bach obteve um sucesso de público e de crítica que superou largamente as nossas expectativas. Pensámos, ingenuamente, que afinal havia uma enorme procura de música erudita e havia, por isso, que oferecer às pessoas aquilo que elas ansiosamente esperavam. Os concertos seguintes esfriaram esta nossa ideia e, rapidamente, se entendeu que afinal a Festa da Música era um fenómeno único que atraía melómanos e neófitos, para além de curiosos.

Por motivos orçamentais (sobretudo), mas também porque se entendeu que existia uma submissão quase absoluta a um programador que não queria, ou não conseguia, entender a realidade nacional quanto a músicos e repertórios, "nacionalizámos" a Festa e criámos os Dias da Música. Louve-se a coragem e a determinação de António Mega Ferreira ao assumir esta rotura.

Com os Dias da Música pretendia-se manter um evento único. Cada edição era subordinada a um tema cuja abrangência permitia apresentar propostas tão distintas que podiam ir desde a música antiga à contemporânea, passando pela clássica, pelo romantismo, pelo fado, jazz, blues, tango...

A duração dos concertos (entre 45 e 60 minutos) determinava a escolha do repertório, não permitindo muitas vezes a audição completa de uma obra, o que feria a sensibilidade dos puristas, mas os Dias da Música não eram pensados exclusivamente para estes, mas para os milhares de pessoas que habitualmente não frequentavam este tipo de oferta.

Os preços dos bilhetes, as pausas entre concertos, as ofertas alternativas gratuitas, as atividades pedagógicas, enfim tudo era pensado para proporcionar um fim de semana diferente. Conseguíamos ter um grande número de concertos, com elevadas taxas de ocupação e com um orçamento sempre cumprido e adequado à situação financeira da Fundação CCB.

Os Dias da Música sempre foram uma Festa onde conviviam diferentes públicos, de todas as idades. Isto era serviço público, era uma obrigação que advinha dos fundamentos da criação desta Instituição.

Em 2018 houve uma proposta inteligente como tema, uma diferenciação nas durações dos concertos, uma abordagem de qualidade nos intérpretes, uma boa ideia geral. Mas não houve Dias da Música. E não houve a coragem de dizer que isto é outra coisa. Se continuarem a aposta neste modelo não lhe chamem Dias da Música.

Haja coragem!

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