Fake, fancaria e fantasia

Será difícil começar melhor do que com um recurso assumidamente reverencial à sábia, acutilante e provocadora Agustina Bessa-Luís: "As boas ficções fazem as realidades mais saborosas, e, se não fosse o que os outros nos fazem errar sobre eles, a vida era menos interessante. A verdade, que eu saiba, não é virtude" (do livro Eugénia e Silvina, 1989). De uma forma mais elegante e mais envolvente, assim se estende a velha máxima que recomenda que não devemos deixar que a verdade estrague uma boa história. Para subscrever esta ideia, ou estas propostas, basta pensar como seria o mundo, mais aborrecido e menos palpitante, sem as ficções de García Márquez, de Borges, de Juan Rulfo, só para nos mantermos no universo mágico da América Latina. Há, no entanto, uma ressalva que merece vir desde já à superfície: se Agustina é uma das nossas grandes estetas, arquiteta de conceitos, espeleóloga de palavras - apesar de a ter ouvido dizer, com ironia: "sei que sou das escritoras portuguesas mais conhecidas, nem por isso das mais lidas..." -, a escritora amarantina nunca foi jornalista, embora tivesse exercido funções de diretora de um jornal, do Porto, e impressione com uma imensa colaboração em publicações periódicas.


Gostaria de poder concluir que o advento, a multiplicação e a diversificação das fake news - e todos os seus derivados - resultam do impulso romanesco dos profissionais da informação. Mas isso equivaleria a mergulhar num puro delírio de benevolência, no momento em que assistimos, com as honrosas exceções que nos vão dando esperança, a um dos momentos mais baixos do jornalismo, seja qual for o prisma de avaliação. Claro que os piores exemplos e as mais degradantes "instruções" acabam por levar-nos a origens antes insuspeitas ou, no limite, muito menos poderosas antes, a começar no "homem mais poderoso do mundo", com o seu indecifrável cabelo laranja, com as suas mãos boçais (e sempre ameaçadoras, se fizerem o favor de reparar), com a total ausência de princípios, aliada à perseguição de obscuros fins. Não ficamos por aí, até por ser nosso dever olhar para dentro, para aqueles que editam e dirigem "informação" baseados na frenética procura do "cheiro a sangue". Baniram do léxico palavras como "confirmação", "bom senso" ou "rigor". Ignoram, voluntariamente, as fronteiras entre interesse público e devassa do privado. Hoje, é infelizmente comum partir-se para uma reportagem sabendo de antemão o que se vai escrever, gravar ou mostrar. O maior dos dislates é, ainda assim, que esses arautos do "novijornalismo" (com a devida cortesia a George Orwell) venham vender-nos o produto malcheiroso que fabricam como "jornalismo de investigação".


Dá que pensar, a quem pense dar os primeiros passos na profissão. Mas, mais ainda, aos que pactuam, sem esboçarem resistência ou, ao menos, reticências, com o estado a que chegámos. Os "consumidores", por azar, partilham a responsabilidade desta miséria - deixaram-se formatar pelas redes sociais e não tentam, muitas vezes, levantar o véu para perceber o que se esconde por trás do que leem, ouvem ou veem. Há esperança? Há sempre. Recorra-se ao livro-farol de Timothy Snyder (Sobre a Tirania - Vinte Lições do Século XX, ed. Relógio d'Água), um historiador e professor de Yale: "Quando nos mostramos vivamente interessados em assuntos de relevância dúbia em momentos que são escolhidos a dedo por tiranos e espiões, estamos a participar na destruição da ordem política que nos rodeia. Podemos inclusive pensar que não estamos a fazer mais do que deixarmo-nos ir na corrente dos acontecimentos, em conformidade com os outros. Isto é verdade - e é também aquilo que Arendt descreveu como a degeneração da sociedade a ponto de se transformar em mera 'populaça'". A partir daqui, como costumava dizer Peter Gabriel quando terminava a canção Biko (dedicada a Stephen Biko, líder negro sul-africano assassinado pelo apartheid) nos seus espetáculos, "the rest is up to you". Ou seja, "o resto é convosco". Com uma certeza: na ficção, o fake pode encostar-se à fantasia, sem prejuízo para ninguém. Na informação, equivale apenas à fancaria.

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João Almeida Moreira

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