Eu e a Madonna (e a Ivete)

Eu e a Madonna é um título tipo selfie com celebridade.

Só que esta selfie nunca aconteceu. Apesar de ela ser uma rapariga, ou senhora, que vive praticamente no meu bairro, ou num bairro ao pé do meu, ainda não nos cruzámos.

Eu gostava de a encontrar e dizer-lhe, como é costume dizer nestes casos, que aprecio muito o seu trabalho - que conheço e sigo há muito tempo.

Uma vez, uma senhora disse à escritora Agustina Bessa-Luís: "Gosto tanto de si que um dia ainda hei-de de ler um livro seu".

Eu nunca li nenhum livro da Madonna, mas o resto da obra conheço e gosto muito. E sobretudo gosto do que ela revolucionou e representou.

Mas não é da minha vizinha famosa que eu quero falar (escrever). Para falar sobre a Madonna não há em Portugal ninguém melhor que o João Lopes, que escreve nesta edição sobre ela.

Eu quero cronicar sobre o culto da fama, o fascínio da celebridade, a relação do fã com o ídolo, o retrato com o artista enquanto famoso, a famosa selfie.

As selfies com famosos vieram substituir os autógrafos. Uma imagem vale mil rabiscos. E a selfie inclui o emplastro do self, do moi-même ao lado da celebridade, um espelho com reflexo melhorado do je.

Ambos são uma forma fetichista de relação com a celebridade. Um fake de uma intimidade que não aconteceu.
Os famosos vieram substituir os heróis e os deuses da antiguidade, são a sua versão contemporânea no contexto da sociedade do espectáculo.

Tal como havia uma miríade de heróis e deuses na mitologia, há famosos e celebridades para todos os gostos, desde as mega-estrelas inacessíveis aos famosos anónimos dos reality shows do lixo televisivo.

Eu próprio, myself, quando aparecia na televisão a apresentar um programa de debate político que se tornou relativamente popular no nosso bairro português e, vá lá, voilá, nas comunidades onde o canal emitia, eu próprio moi-même me tornei uma pequena e efémera celebridade local, nível 8, no índice de celebridade nacional.

( Índice de Celebridade Nacional, dados do primeiro semestre de 2018 -
Nível 1: Cristiano Ronaldo.
Nível 2: Carreiras, Tony e filhos; Cristina Ferreira; Marcelo e Sócrates, Fernando Mendes quando era mais gordo.
Nível 3: Actores de telenovelas coleção outono/ inverno ou primavera/verão do ano em causa; futebolistas; primeiro-ministro e ministro das finanças; ministro bombo da festa da temporada; you tubers.
Nível 4: velhas glórias vivas, tipo Eunice e Ruy de Carvalho (na verdade, só Eunice e Ruy de Carvalho); comentadores desportivos.
Nível 5: apresentadores das televisões generalistas; políticos envolvidos em pequenos escândalos da temporada; rostos de campanhas de publicidade do momento; mulheres fadistas; cómicos; niltons; comentadores políticos (daqueles que comentam sozinhos).
Nível 6: comentadores políticos (dos debates); políticos e dirigentes em geral envolvidos em grandes escândalos.
Nível 7: génios do trimestre (escritores, actores, realizadores, etc., que ganharam um prémio qualquer em qualquer lado).
Nível 8: tipos que apresentam não sei o quê na televisão (cá estou eu); escritores que dizem que odeiam aparecer.
Nível 9: escritores que querem muito aparecer; e por aí fora...
Dados da Marktest/Universidade Católica/ E mais outra empresa menos conhecida. Ou pelo menos de uma das três. Margem de erro: não muito grande).

Estou, portanto, na categoria 8 a resvalar para a 9. A passar do tipo que é abordado na rua do género: "Eu conheço-o, o senhor é da televisão. Não apresentava aquela coisa da má-língua ou lá o que era?... o Eixo? Ah, és o Zink, não é?"
Para o que é abordado tipo: "Eu conheço-te. Tu não és dos Olivais?"

É muito divertida a fama vista de fora.

A relação de uma pessoa com uma celebridade acaba por ser sempre como a relação que uma criança tem com um desenho animado que faz parte do seu imaginário e das suas histórias de faz de conta. O encontro com a celebridade é o momento em que cumprimentamos o Rato Mickey.

Esses momentos são sempre emocionantes para os fãs e admiradores. Mas vice-versa não. Não para o Rato Mickey.

Como trabalho em televisão e na área da cultura há muitos anos, tive a oportunidade de me cruzar com muitos Ratos Mickey. Tenho uma coleção de encontros com famosos de todo o tipo. E para cada encontro, se não tenho uma selfie, que não é tanto o meu território ou a minha cena, tenho um pequeno episódio anedótico para contar.

Um dos meus encontros favoritos aconteceu já há uns anos. Tinha ido com uns amigos, depois de um concerto do Caetano Veloso, aos bastidores cumprimentar e venerar o Caetano e reencontrar o Jacques Morelenbaum, enorme músico e director musical daquele concerto, que noutra ocasião tinha conhecido.

Tínhamos combinado jantar depois do concerto e fomos no meu carro. Comigo, para além do Jacques, ia o Davi Moraes, guitarrista do Caetano e a sua namorada, Ivete.

No restaurante eu fiquei mesmo à frente dela e para começo de conversa perguntei: "Então e você faz o quê, Ivete?"

E de repente fez-se um silêncio na mesa. Depois dessa pausa estranha ela respondeu: "Eu canto, né?!".

Nesse preciso momento, eu, que me considero um muito razoável conhecedor de música brasileira, percebi que tinha feito aquela pergunta à Ivete Sangalo. Provavelmente, à época e hoje ainda, a cantora mais popular do Brasil.

Sobrevivi para contar. E já contei tantas vezes esta história que, por causa dela, estou a ficar famoso. Qualquer dia querem tirar selfies comigo.

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