Estabilidade na Educação, sff

Houvesse seriedade e seria definido um programa para uma geração

Nos últimos dias tem sido notícia que a Educação Física vai voltar a contar para a média de acesso ao ensino superior. Assim de repente, é uma notícia que me agrada.

Ao longo, pelo menos, das últimas duas décadas temos vindo a assistir à desvalorização, quase anulação, da Educação Física no percurso escolar dos jovens portugueses. Um erro que se vai pagando caro e que urge combater de uma vez por todas. Um erro que deixa marcas de insatisfação a vários níveis, individuais e coletivos, físicos e cognitivos. Por alguma razão se afirma mens sana in corpore sano (mente sã num corpo são). De vários exemplos, podemos até falar dos Jogos Olímpicos e não tenho receio em afirmar que, se tivéssemos uma forte política desportiva no percurso escolar, nesses jogos (ou em outros eventos) iríamos certamente obter melhores resultados.

Por estas razões, mas sobretudo por acreditar no desporto, na Educação Física, como algo essencial ao desenvolvimento do indivíduo, a minha satisfação com a notícia. Mas que não seja apenas uma operação de cosmética administrativa. Há muito por fazer. É essencial valorizar de facto a disciplina. Seja nos currículos escolares seja nos recursos, humanos e materiais.

E esta notícia leva-me a pensar, uma vez mais, em algo mais macro. Vamos partir do pressuposto que eu nem sei se esta medida é positiva ou negativa. Seja ela sobre Educação Física ou Física Quântica. Seja ela sobre carga horária ou rede escolar. Infelizmente, aquilo a que vamos assistindo na Educação, como em outras áreas, é a várias mudanças a cada governo. Sejam coisas novas sejam regressos. A cada governo, algumas vezes a cada ministro (de um mesmo governo), mexe aqui, remexe acolá, volta a mexer, ora anda para a frente ora volta atrás. E assim se vai gerindo um país e se vão transformando gerações em cobaias permanentes para nada.

Por isso é que apetece gritar: parem!

A Educação é um dos setores fundamentais de uma comunidade. É um dos setores em que a primeira regra deveria ser mesmo a estabilidade.

Houvesse seriedade e coragem nos designados responsáveis e seria definido um programa para uma geração. Ouvidas as partes interessadas, aquilo que se chama comunidade escolar e stakeholders, um plano, um programa, deveria ser fechado e pelo menos durante 15 anos não lhe mexiam.

Eu sou de uma geração em que podemos estar sentados à mesa uns poucos amigos com quase nenhumas diferenças etárias e cada um teve o seu formato de ensino secundário. Um teve PGA, outro provas de aferição; um teve três disciplinas no 12.º ano, outro umas seis ou sete. Já chega de alterações a cada mudança de cadeiras na 5 de Outubro. Estabilidade na Educação, sff.

Fundador Iniciativa Liberal

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