Erudição zoológica

E se o Rei da Selva não me aparece no meio dos símios, eis que o retenho na fantasia como símbolo do triunfo do Homem sobre a Natureza, e como explicação correspondente aos bestiários do mundo

Amanhece frio, mas ensolarado, o dia de Janeiro, atravessamos os portões de acesso ao jardim, e o guarda fardado corta o cantinho dos bilhetes. No sobretudo de trespasse azul-celeste, nas meias azul-marinho até ao joelho, e nas botas de camurça castanha, agasalho-me do Inverno com razoável elegância infantil. Quanto às luvas novas, de lã, e azul-marinho também, substituem as de pelica da mesma cor, irremediavelmente estragadas pela veemência com que tentei enxugar as lágrimas, desencadeadas na semana anterior pelo episódio do assassínio da mãe de Bambi. E uma outra luva, enorme e de couro preto, aperta a minha mão, ignorando o ritmo fora do comum a que me palpita o coração.

Os bichos que vou admirar conheço-os apenas em baquelite, e dispostos à brincadeira, uma vez saídos da Arca de Noé do mesmo material, oferecida pela Avó como presente do meu aniversário natalício. São uns quantos animais de Criação, salvos do Dilúvio Universal, e porventura os mais representativos, o elefante e a girafa, o macaco e o hipopótamo, o tigre e o crocodilo, essa fauna que ponho a deslizar pelo portaló da Arca, uma vez aportada esta a terra firme. E caminhamos ao encontro deles, restritos às suas jaulas de grades de ferro, mas abrigados no conforto capaz de os tornar felizes, e de barriguinha cheia a horas certas com aquilo que constitui a preferência de cada qual.

Penetramos afoitamente no parque, e logo o elefante que eu não supunha tão imenso estende a grossa tromba que se assemelha a um ramo de embondeiro, recolhe a moedita que lá lhe coloco, e despacha-se a tocar a sineta. E já descobri que a bicharada fala como nós, e que o maravilhoso Dumbo, elefantezinho surgido a cores num livro escrito em inglês, e que trabalha num circo, se ergue em voo planado, esticando as largas orelhas como as asas de um avião, enquanto os corvos cantam, I"ve seen an elephant fly.

Andamos e andamos, e vamos ter à aldeia dos macacos na idade em que travo conhecimento com Chita, a companheira daquele Tarzan que declara num cartucho redigido em mau português, "Deixo-vos a vida, mas fico com as armas de vocês para vos impedir de voltarem a matar, ide!, estes animais não vos fizeram mal nenhum, entre eles e vocês é fácil adivinhar quem é o mais feroz." E se o Rei da Selva não me aparece no meio dos símios, eis que o retenho na fantasia como símbolo do triunfo do Homem sobre a Natureza, e como explicação correspondente aos bestiários do mundo.

Dispensada a mão adulta que segura a minha, descortino a primeira girafa, e por baixo dela o falso veterinário que orienta as tias da província na visita às espécies em cativeiro, e que atesta assim a sua erudição zoológica, "Esta girafa está muito mal, muito mal, vê estas manchas todas aqui?, isto é fígado!" Debita a frase com a empáfia do mamífero fabricado à imagem e semelhança de Deus, e continuamos a ouvi-lo por décadas e décadas.

Tão crescido que não me identifico, atravesso num safari as verdes colinas de África, de chapéu colonial, e de Winchester pronta a disparar. Os soldados que abandonam o aquartelamento vencido, cercado pelas tropas do exército de libertação, resvalam na sua euforia, ou no seu pânico, da jangada que os transporta a monte. E são lentamente devorados pelos crocodilos, arregalando o globo ocular gelatinoso, e recuperando as lamacentas águas que desde sempre conformam o seu habitat.

Morrem muito mais cedo os predadores do que os restantes, ora padecendo de uma enfermidade que lhes rói as entranhas, e que os revolve em decénios de desertos povoados por espectros das feras abatidas, ora sumariamente disparando um tiro de revólver contra a têmpora, amortalhados na bandeira nacional. E escorregam devagar para o vale dos cadáveres putrefactos, indistintos dos brutos que chacinaram, e dos vermes brancos que neles rabiam.

Claudicando da perna direita, em consequência da ossificação dos dedos do pé, cruzo-me com um miúdo vestido à antiga, sobretudo de trespasse azul-celeste, meias azul-marinho até ao joelho, e botas de camurça castanha. E um amigo jornalista pede-me umas quantas palavras de esperança, ou de agouro, para o ano que vai entrar. Com a mirada infinitamente triste da derradeira pantera de Argel segredo-lhe ao ouvido, "Se o megaterramoto acontecer, balbuciaremos com Marianne Moore, A malady smote the earth one year, / Felling beasts and infecting all with fear." Mas acrescento para mim próprio, "Deus sabe como me redimiria despertar amanhã, defendido do Inverno pela roupa de menino elegante, e pela mão de luva preta que me guiasse na definitiva busca do zoo."

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