Entre Pares

Boa parte do percurso literário de Mário Cláudio socorre-se de dois trunfos que o autor foi concentrando e praticando até chegar à excelência. Por um lado, uma espantosa capacidade de observação, desdobrável em duas valências que se complementam, aquela que regista os grandes contornos, as vincadas "linhas de vida", as regras (e as transgressões) dos comportamentos, mas também a anotação cirúrgica dos pormenores que, como é sabido, ganham sempre mais importância do que as aparências transmitem. Não será mero acaso ou coincidência leviana que tantos dos seus livros nasçam de figuras que efetivamente existiram - até o celebrado Tiago Veiga tem raízes naquilo que aceitamos e designamos por realidade - e que, progressiva e decididamente, vai transformando em personagens, apartando-as da biografia e aconchegando-as com uma imaginação que tem (sempre) o condão de nos seduzir e de nos conduzir por onde bem entende. Esse é o segundo toque identificador de uma escrita: a imaginação, que nada aproxima do aleatório nem do meramente especulativo, que descobrimos onde começa mas nunca conseguimos antecipar como termina.

Acontece que este não é um livro comum em Mário Cláudio nem, de resto, naqueles que costumamos singularizar pelo ofício de escritores. Aqui, há um homem que, de forma resoluta mas moldável consoante o eleito das suas palavras, decide navegar entre pares e "dessacralizá-los", humanizando-os com as descrições, individualizando-os com os episódios e as ideias escolhidas, tornando--os mais próximos de quem se habituou a lê-los (mas não só, que este "domínio dos deuses" tornados gente vai além dos escritores) ou, ao menos, a reconhecer-lhes o nome. Os 25 convocados pelo autor que os reúne, de uma maneira que vai além da mera circunstância, parecem ganhar cor e pulso, acabam por respirar e falar connosco, com o auxílio de um intermediário que, sem abandonar o âmbito da crónica, acaba por deles se tornar cúmplice ou porta--voz ou "prefaciador" ou "memorando", consoante as ocasiões, não se esquivando nunca nem se esforçando jamais a uma intimidade que, nalguns casos, ressalta evidente.

Mário Cláudio é prudente, ao reservar estes seus "quadros", uns com traço grosso e impressivo, outros com gosto evidente pelos contrastes de pormenor, a quem já morreu. Num tempo volátil como aquele que vivemos, sabe que nenhuma destas crónicas lhe dará azo a arrependimentos ou desilusões. Mas é também corajoso, evitando sempre o panegírico. E minucioso, pela forma como reconstitui ambientes e traços de personalidade. E disponível para a exposição própria, uma vez que não ensaia qualquer esforço para fugir à confissão de que a imagem deste ou daquele se alterou com o passar dos dias, conduzindo-o a retificações e reparações de "injustiças". Ao mesmo tempo, aproveita com sagacidade para soltar aquilo que pensa sobre os meios literários de ontem e de hoje, sobre as "capelinhas" da poesia, sobre as modas estéticas e sobre os ventos ideológicos que tantas vezes condicionam os juízos sobre este ou sobre aquele.

Claro que a obra pode e deve ser apreciada com independência face ao que se (des)conhece sobre o autor. Mas eu gostei de saber mais sobre Eugénio de Andrade e Vergílio Ferreira, como apreciei a recordação de Luís Miguel Nava ou Luísa Dacosta. Mais: o facto de 23 das 25 crónicas (as outras duas são inéditas) terem sido publicadas neste mesmo jornal - entre 11 de setembro de 2015 e 26 de fevereiro de 2016 - faz-me pensar se não precisamos mais de espaços deste género para a preservação e para manter a mais-valia cultural dos nossos periódicos. Deste jeito, ler jornais é mesmo saber mais - nem que seja pela gratificante (re)descoberta da memória.

A Alma Vagueante
25 Autores Que Conheci
Mário Cláudio
Ed. Minotauro
168 páginas
PVP: 11,61 euros

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