Eles não sabem quem somos

Nós portugueses fazemos quase tudo por uma palmada nas costas. Sobretudo quando estamos "lá fora" ou no meio de estrangeiros. Quando viajo uso sempre o meu passaporte português, que recebi no berço por via da minha mãe, e deixo o alemão, que herdei do meu pai, na mala. É mais agradável ser o gajo porreiro, mesmo que ninguém saiba exatamente quem somos, do que o alemão, que já toda a gente sabe como é.

Um dia, na Alemanha, a sair dum hotel em Berlim com um colega russo, passa por nós um grupo de portugueses. O meu amigo já tinha pedido duas rodadas de vodka depois do pequeno-almoço e grita atrás deles:

"Figo! Ronaldo!" Os turistas portugueses, a caminhar atrás de um guia com uma bandeirinha com as cores de Portugal para não se tresmalharem, estacam e a felicidade e a alegria daquele grupo de senhoras e senhores já de alguma idade foi tal que, quando entrámos no táxi, ainda nos acenavam de longe e gesticulavam com os braços. Um português precisa de reconhecimento como o bacalhau de azeite.

Se o meu amigo russo tivesse gritado "D. Sebastião! Beatriz Costa!" ou "pastel de nata!" a euforia do grupo teria sido a mesma. A maioria lá fora não sabe quem somos, conhece-nos mal ou julga que somos uma espécie de espanhóis sob tranquilizantes. Pior do que os preconceitos é a ignorância. No Zimbabwe, um velho fazendeiro, inglês e branco, dizia-me um dia: "Sabe, aprecio muito a cozinha portuguesa." Fico radiante e pergunto-lhe de que pratos mais gosta. Alisa a sobrancelha com o dedo indicador como quem pensa "que pergunta impertinente".

Hesita antes de responder: "chicken piripiri e paella". Valha-me Deus.

Pensar que os turistas estão muito interessados no país e que o nível de turismo em Portugal está nos píncaros já são dois erros. De acordo com o Eurostat até a Croácia atrai mais turistas do que Portugal.

Barcelona e Milão recebem anualmente muito mais turistas do que Lisboa e a Holanda capta mais receitas do turismo do que Portugal. No critério "intensidade do turismo" Portugal fica mesmo abaixo da média dos 28 países da UE.

Na imprensa internacional, quando se fala da crise dos países no Sul da Europa, é muito frequente ler-se que "Grécia, Itália e Espanha" se encalacram por aqui ou afundam por ali. Portugal ficar fora do elenco não é mérito do gabinete de comunicação do governo português ou do atual desempenho económico do país. É mesmo porque se esquecem muitas vezes que existimos. Pior do que isso só mesmo quando nem sequer se dão ao trabalho de nos ignorar.

Por isso nos sentimos tão facilmente desrespeitados, por exemplo, quando o presidente da Alemanha disse no seu discurso oficial em Lisboa, que lhe agradava muito estar em Portugal e sentir uma "tão grande proximidade com África". Uma ofensa só para quem, cá dentro, por sua vez, ignora a verdade dum país que incorporou em si o mundo inteiro e cujas cidades já há mais de 400 anos eram descritas assim: "parecem jogos de xadrez com tantos brancos como negros" (in: catálogo da atual exposição no Museu Nacional de Arte Antiga sobre Lisboa "A Cidade Global").

Não é só junto dos jornalistas internacionais que Portugal passa muitas vezes despercebido. Também os terroristas, que atacam Berlim, Bruxelas, Londres, Paris ou Madrid, se esquecem felizmente de nós. A ignorância geral, que leva grande parte do planeta a pensar que Portugal é uma província da Península Ibérica, que a capital ainda é Córdova ou Madrid, continua a ser uma excelente defesa. Um amigo austríaco, com a atenuante de ser artista, perguntou-me um dia onde exatamente ficava Lisboa. Disse-lhe que ficava 500 quilómetros a oeste de Madrid. Quando me veio visitar, apanhou um avião para Madrid, alugou um carro e ficou muito admirado quando lhe disse que Lisboa tinha aeroporto. A maior parte dos meios de comunicação social internacionais têm os seus correspondentes em Madrid, a partir de onde depois "cobrem" Portugal, o que já em termos semânticos é um insulto. É o nosso fado: só uma ínfima percentagem da população mundial sabe o que é um pastel de nata, a esmagadora maioria não sabe mesmo nada.

*Correspondente do Der Freitag e cronista do Portugal Post

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