Eleições democráticas e a revelação de Ésquilo

A democracia teve origem na Grécia antiga para eleger governantes, definir políticas e leis assim como para legitimar decisões dos governantes. Era uma votação a viva voz ou de braço no ar, realizava-se no espaço público e estava limitada aos cidadãos livres. Como o resultado era incerto, realizavam-se campanha de promoção para obter o apoio maioritário a uma das opções.

Os primeiros testemunhos da prática democrática foram relatados por Ésquilo na tragédia As Suplicantes (423 a.C.) ao dramatizar o mito das Danaides. Nesta história, umas jovens exiladas suplicam a proteção ao rei da cidade-Estado de Argos para evitar casar à força. O soberano, que pode decidir sem consultar, deseja protegê-las, mas também tem consciência de que qualquer que seja a sua decisão pode afetar o destino da cidade que governa e por isso convoca o povo a votar e decidir. O governante realiza uma campanha para obter o apoio dos cidadãos e consegue que a consulta seja favorável a protegê-las e a defendê-las. O objetivo de proteger as jovens parece cumprir-se com a feliz votação, mas terá um final trágico porque, após um acordo secreto, estas jovens serão casadas com os seus perseguidores e, todas menos uma, assassinam os seus cônjuges no leito nupcial, para serem finalmente mortas pelo único sobrevivente.

A democracia atual é diferente da antiga. Todos os cidadãos têm direito ao voto, podem exercê-lo de maneira secreta e podem fazê-lo em diferentes modalidades. Como na Antiguidade, fazem-se campanhas eleitorais (ampliadas pelos meios de comunicação em massa e pelas redes sociais) e presume-se que o resultado é incerto até finalizar a contagem.

Os últimos exemplos de votações democráticas realizaram-se com formas e objetivos diferentes entre si: no caso do Reino Unido convocou-se um referendo para ratificar a sua permanência na União Europeia; na Colômbia, realizou-se um plebiscito para aceitar um acordo de paz com as guerrilhas insurgentes; e nas Nações Unidas implementou-se um processo de seleção transparente para "garantir a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres" e promover a eleição de um representante da Europa de Leste para o cargo de secretário-geral.

Estes recentes eventos distinguem-se da Grécia antiga pela vigência de uma democracia à escala mundial mais evoluída e complexa, cujas decisões, independentemente de serem realizadas num Estado ou numa organização, produzem amplos efeitos políticos, económicos e institucionais por causa da interdependência crescente da globalização. Contudo, o passado e o presente coincidem na incerteza para prever os resultados das consultas democráticas.

Assim, o brexit obriga o Reino Unido a sair da União Europeia, rompe o processo de ampliação da comunidade política de direito mais bem-sucedida da história recente e limita a sua projeção como potência internacional. O plebiscito colombiano diz "não" ao Acordo de Paz, paralisa os acordos mais abrangentes alcançados em 50 anos de conflito armado e mantém a Colômbia e a sua área de influência geopolítica como uma zona potencial de narcotráfico e guerra. O novo procedimento de diálogos informais com os candidatos e a aclamação do Conselho de Segurança permite que a Assembleia Geral das Nações Unidas designe, pela primeira vez e por unanimidade, um europeu ocidental do sexo masculino como seu secretário-geral.

Uma leitura simples permite concluir que os eleitores de todos os tempos, sejam da cidade-Estado de Argos, dos Estados da Colômbia ou do Reino Unido, estão dispostos a definir-se pela defesa das suas crenças, valores e exigências particulares; enquanto os Estados soberanos agrupados em organizações tais como as Nações Unidas preferem o consenso e a unidade sobre generalidades até para eleger ao seu mais alto funcionário administrativo.

Uma análise mais complexa permite reconhecer as coincidências entre o primeiro-ministro David Cameron, o presidente Juan Manuel Santos e os presidentes da assembleia geral Mogens Lykketoft e do Conselho de Segurança Samantha Powers que, apesar de terem poder para decidir sob o seu próprio domínio, convocam votações para legitimar as suas decisões confiantes de que a maioria os apoiará e, pelo contrário, obtêm resultados adversos aos seus objetivos.

Em todos os casos, como antecipou a tragédia de Ésquilo, os líderes ou governantes que estão convencidos da bondade e dos benefícios das suas propostas confiam que vão ter o apoio maioritário e por isso delegam na votação do povo a sua legitimidade. A reincidência histórica nestas eleições mostra que podem produzir-se resultados inesperados para os seus proponentes e ensina que o final pode ser trágico se não abordam os conflitos considerando a perspetiva dos seres humanos.

A votação democrática é um sistema que cumpre o seu trabalho ao providenciar um veredicto quando finaliza a contagem do último voto.

Defender a união, a paz e a igualdade, assim como outros princípios altruístas, depende da complexa vontade e trabalho das pessoas.

Ex-embaixador do Paraguai em Portugal e professor no ISCTE-IUL

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João Gobern

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Ganha-se balanço para o livro - Espaço para Sonhar, coassinado por David Lynch e Kristine McKenna, ed. Elsinore - em nome das melhores recordações, como Blue Velvet (Veludo Azul) ou Mulholland Drive, como essa singular série de TV, com princípio e sempre sem fim, que é Twin Peaks. Ou até em função de "objetos" estranhos e ainda à procura de descodificação definitiva, como Eraserhead ou Inland Empire, manifestos da peculiaridade do cineasta e criador biografado. Um dos primeiros elogios que ganha corpo é de que este longo percurso, dividido entre o relato clássico construído sobretudo a partir de entrevistas a terceiros próximos e envolvidos, por um lado, e as memórias do próprio David Lynch, por outro, nunca se torna pesado, fastidioso ou redundante - algo que merece ser sublinhado se pensarmos que se trata de um volume de 700 páginas, que acompanha o "visado" desde a infância até aos dias de hoje.