Duas línguas para um problema

É obrigatório falar-se também em português no caminho de busca por uma solução para um problema africano chamado Congo, República Democrática do Congo [RDC]. Não se trata de um problema qualquer, esta maka (expressão angolana para problema) tem nas suas fronteiras nove países africanos, entre os quais Angola. O efeito de contágio, em caso de crise grave, é imediato.

Angola, país africano de expressão portuguesa, é a potência militar regional na África Central, espaço em que se enquadra o Congo Democrático. Além da componente militar, Angola tem sido, há pelo menos dez anos, líder na busca de soluções diplomáticas para estabilizar quer a zona da África Central, quer a Região dos Grandes Lagos, quer ainda a do golfo da Guiné. Os dois países fazem parte destas organizações regionais africanas.

No entanto, olhando para uma fronteira comum que envolve Angola pelo norte e pelo leste, e se tivermos em conta a história mais recente, como os trinta mil refugiados congoleses que em meados do ano passado buscaram abrigo na província angolana da Lunda Norte fugindo de convulsões internas, é fácil perceber que para o governo de Luanda a estabilidade na RDC é uma questão vital de segurança interna. De estabilidade económica e social também, já que Angola ainda se vê a braços com uma prolongada crise económica e financeira.

Contudo, Luanda não é a única capital com capacidade para interferir nos destinos do Congo, tem de contar com o concurso de pelo menos duas potências europeias: a França e a Bélgica, cujo rei, Leopoldo, foi, no seu tempo, dono (não a Bélgica) daquele gigante africano. Por isso a capital, hoje Kinshasa, se chamou de Leopoldville.

Se Angola teme que uma eventual instabilidade na RDC afete a sua própria segurança, já Paris e Bruxelas olham para a proteção dos seus interesses económicos e geoestratégicos. Denominador comum: os três querem um Congo estável. Porém, esta estabilidade pode não servir ao mesmo tempo os três interesses. França e Bélgica, locomotivas da francofonia, disputam fundamentalmente a primazia em termos de influência política e económica. Angola está mais interessada, para já, na influência política e na estabilidade militar. Mas não deixa de olhar para os mais de sessenta milhões de congoleses como terreno para expandir as suas exportações, sobretudo de produtos do mar, petrolíferos e agrícolas.

Tudo isto fez que o assunto RDC tivesse um lugar central nas conversas recentes, de há uma semana, do presidente angolano, João Lourenço, com o seu homólogo francês, Emmanuel Macron, e com o primeiro-ministro belga, Charles Michel. As conversações passaram, claramente, pela saída pacífica do poder do atual presidente congolês, Joseph Kabila, depois das eleições previstas para dezembro próximo, fruto de uma acordo (de São Silvestre) que envolveu a Igreja Católica e parou a onda de violência que estava a agigantar-se com a recusa de Kabila de organizar eleições e a tentativa de alterar a Constituição para se perpetuar no poder.

Se na era de José Eduardo dos Santos a família Kabila contou com a proteção militar angolana, os novos tempos dizem que Angola não hesitará em removê-lo à força, como anteriormente fez com Mobutu em Kinshasa e com Lissoubá em Brazzaville. Esta capacidade de intervenção militar faz de Angola um parceiro imprescindível quer da Bélgica quer de França. Aliás, com a França, uma quase confrontação militar na Costa do Marfim ensinou os dois países a cooperar no terreno que se seguiu: a República Centro-Africana. Anteriormente, uma outra disputa, no caso Angolagate, mostrou, por um lado, a inflexibilidade angolana nas suas causas externas e, por outro, como os dois países podem prejudicar-se mutuamente em termos económicos, o que a ninguém interessa.

Por outro lado, esta pequena "petulância" angolana (típica dos angolanos, dir-se-á algures) advém não apenas da vantagem de a sua força aérea estar a minutos de Kinshasa e as suas botas a algumas horas, podendo numa ação-relâmpago fazer estragos importantes num país com o Exército cronicamente indisciplinado, mas também de um apoio fundamental que vem dos Estados Unidos da América. Luanda e Washington estão ligados por uma parceria estratégica firmada nos tempos da presidência de George W. Bush. Os Estados unidos têm em Angola o parceiro mais fiável e capaz para a estabilização da região central de África e do golfo da Guiné. Como já se deve ter notado, entre Trump e Lourenço só há "beijinhos e mimos", apesar da acidez com que Trump se refere aos seus parceiros e aliados.

Nos últimos dias, no entanto, surgiu um novo elemento em todo este xadrez, com a libertação de Jean--Pierre Bemba, anteriormente condenado pelo Tribunal Penal Internacional, em 2016, por crimes contra a humanidade. Se concorrer a presidente, poderá ser a alternativa mais pesada a quem Kabila apoiar, num universo de centenas de candidatos sem história e levados sem muita seriedade. Resta saber quem "amarrará" primeiro Bemba, em termos de influência, se a França, se a Bélgica, se o Ruanda, se os Estados Unidos da América, se Angola. Tendo Bemba ligações familiares com Portugal (as filhas têm nacionalidade portuguesas e ele casa de família no Algarve), está consolidada a ideia de que o destino próximo do Congo Democrático será ditado em português também.

Diretor do jornal angolano O País

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