Donald Trump e o embrutecimento da América

Como qualquer demagogo ignorante, Trump também não tem nenhum problema em distorcer a verdade, a fim de criar medo nos eleitores, e ser ele a desempenhar o papel do super-herói que os vem salvar

Há cerca de um ano fiz uma palestra sobre a importância da narrativa a um grupo de professores de Literatura americanos e, para sustentar um dos meus argumentos - sobre a estupidificação da produção de filmes na América - pesquisei os filmes de maior sucesso de 2014. A lista era muito mais juvenil do que eu pensava que seria. Eis os maiores sucessos de bilheteira daquele ano: X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido, Capitão América: O Soldado do Inverno, Os Guardiões da Galáxia, Má Vizinhança, Interstellar, Kingsman: Serviços Secretos, Em Parte Incerta, Tartarugas Ninja: Heróis Mutantes, Vai Seguir-te, Whiplash - Nos Limites.

Hoje em dia, quase todos os filmes que faturam muito dinheiro nos Estados Unidos são livros de banda desenhada reformulados, comédias adolescentes e westerns de ficção científica. Mesmo os filmes que poderiam oferecer narrativas ligeiramente mais sofisticadas, como Kingsman, acabam por ter enredos tolos e estereotipados (o bem maior contra o mal implacável!) estruturados pela utilização de efeitos especiais. Muitas vezes, como é o caso de O Filme Lego, que arrecadou 258 milhões de dólares nos Estados Unidos, eles parecem ter sido escritos e produzidos para vender brinquedos a crianças.

Tais blockbusters são, obviamente, feitos para atrair adolescentes ou até mesmo pré-adolescentes. Mas eis o problema: eles são vistos e apreciados também por dezenas de milhões de adultos.

Mas serão esses espectadores realmente adultos, psicologicamente falando?

Faço esta pergunta porque a compreensão desses filmes requer tão pouca vivência do mundo e tão pouca capacidade de raciocínio complexo que qualquer criança de 12 anos consegue tirar deles tudo o que há para tirar. O que é quase nada.

As histórias não são abertas a diferentes interpretações. Elas não exigem que o espectador considere as suas experiências mais traumáticas, mais alegres ou trágicas, a fim de compreender o comportamento das personagens.

Qualquer pessoa que tenha atingido a idade adulta, que tenha necessidades e pensamentos adultos, vai achá-los infantis e chatos. No entanto, a julgar pelos números de bilheteira, um grande número de homens e mulheres na casa dos 20, 30, 40 e 50 anos acha-os emocionantes. O entretenimento perfeito.

E agora, como que por encomenda, estes espectadores embrutecidos têm o candidato presidencial perfeito: Donald Trump.

Trump parece uma caricatura de banda desenhada de um milionário desonesto, eternamente a compor uma personagem para o noticiário da noite, e fala como tal, também. Eis, por exemplo, o seu famoso plano para lidar com os imigrantes mexicanos: "Vou construir um grande muro, e ninguém constrói muros melhor do que eu, acreditem em mim, e vou construí-los muito baratos. Vou construir um grande, grande muro na nossa fronteira sul e farei que seja o México a pagar esse muro. Prestem atenção ao que vos digo."

É o Capitão América a falar ou um candidato presidencial? Ambos, ao que parece.

Outras vezes, ele fala como se se tivesse escolhido a si mesmo para desempenhar o papel do herói misógino no seu próprio western de grande orçamento - um John Wayne de fato. Daí o vangloriar-se sobre o seu fascínio sexual: "Todas as mulheres em O Aprendiz namoriscaram comigo, consciente ou inconscientemente. Como seria de esperar."

A fim de criar essa imagem de um homem a sério, sem papas na língua, insulta frequentemente as mulheres de formas que ele, claramente, considera inteligentes. Eis um exemplo de uma das suas críticas apuradas: "Arianna Huffington é pouco atraente, tanto por dentro como por fora. Entendo perfeitamente que o seu ex-marido a tenha trocado por um homem, ele tomou uma boa decisão."

Não tenham dúvidas, isto é o que passa por esperteza para o público que considera as comédias adolescentes, como Má Vizinhança, hilariantes. Essas pessoas acham Trump divertido e inteligente.

Na verdade, já se percebeu que as cadeias de televisão americanas lhe dão uma cobertura tão destacada precisamente porque, tal como a mais recente adaptação cinematográfica da Marvel Comics, ele pode ser uma garantia de boas audiências quando o alvo é o mínimo denominador comum.

Leslie Moonves, presidente e CEO da CBS, disse exatamente isso. Eis o que ele disse sobre a candidatura de Trump: "[Ela] pode não ser boa para a América, mas é ótima para a CBS." A razão? "Caramba! Quem é que poderia esperar o bom momento por que estamos todos a passar agora?...O dinheiro está a entrar e isto é divertido. Eu nunca tinha visto nada igual e este vai ser um ano muito bom para nós. Desculpem. É uma coisa terrível para se dizer. Mas, dá-lhe, Donald. Continua!"

No caso de qualquer um de nós ter alguma dúvida sobre o baixo nível do discurso nas campanhas políticas de hoje, tenhamos presente que, quando a Princeton Review analisou o vocabulário utilizado pelos candidatos nos debates presidenciais de 2000, descobriu que George W. Bush falou com um vocabulário próprio de uma criança do sexto ano, enquanto Gore esteve um pouco melhor, com um discurso adequado a um aluno do 7.º ano.

Política para uma população de jovens de 12 anos. Sim, é essa a mais recente inovação da América.

Mas talvez o nível do discurso tenha sido sempre muito baixo.

Não, na verdade, já foi, em tempos, muito mais elevado! Segundo a análise feita pela Princeton Review, nos debates presidenciais de 1858, Abraham Lincoln falou ao nível de um 11.º ano, enquanto Stephen Douglas falou ao nível de um 12.º.

Não tenham ilusões, o nosso sistema político evoluiu para apelar aos eleitores que são incapazes de entender qualquer coisa mais sofisticada do que Toy Story ou Homem-Aranha 3.

Neste ano, Trump e os seus colegas republicanos parecem ter trazido o nível do discurso ainda mais para baixo, e não só em termos de vocabulário. Como poderemos esquecer, por exemplo, Trump e Cruz a debaterem o tamanho dos órgãos genitais do candidato republicano mais bem colocado? Além disso, o vazio das posições de Trump sobre quaisquer questões nacionais e internacionais desmente a arrogância de um magnata empresarial provinciano que pensa que pode chegar à Casa Branca através da intimidação e do logro. Eis um exemplo de Trump a competir com a China: "O nosso país está com problemas sérios. Deixámos de ter vitórias... Quando foi a última vez que alguém nos viu a vencer, digamos, a China num acordo comercial? Eu venço a China constantemente. Constantemente."

Para Trump, é sempre uma questão de o bem contra o mal, o que se traduz, basicamente, na América contra o resto do mundo.

Como qualquer demagogo ignorante, Trump também não tem nenhum problema em distorcer a verdade, a fim de criar medo nos eleitores e ser ele a desempenhar o papel do super-herói que os vem salvar: num comício no Alabama, a 21 de novembro de 2015, ele disse à multidão: "Eu assisti à queda do World Trade Center. E vi, em Jersey City, Nova Jérsia, milhares e milhares de pessoas a aplaudirem enquanto os edifícios caíam. Milhares de pessoas estavam a aplaudir. Portanto, alguma coisa se passa. Temos de descobrir o que é."

Estarei certo quando digo que Donald Trump é o candidato perfeito para um público com idade para votar, que interpreta o mundo como se fosse uma história aos quadradinhos?

Seja qual for a resposta, a terrível verdade é esta: o embrutecimento da América não vai parar tão cedo - é demasiado rentável. O que significa que, mesmo que Trump perca desta vez, temos a certeza de vir a ter mais Capitães América como candidatos presidenciais num futuro próximo, prometendo esmagar o Dr. Doom, o islão, as críticas feministas e qualquer outra pessoa que não concorde com eles. A menos que a América melhore o seu sistema de educação, a sua produção cultural e a sua cobertura eleitoral, um deles, mais cedo ou mais tarde, vai acabar a viver na Casa Branca.

Escritor

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.