Diário de um luto

A linha que separa a dor pessoal da crise de uma sociedade pode ser muito ténue. Vivemos tempos em que a representação da primeira está muitas vezes ligada à segunda. E essa proximidade não escapa ao cinema que se propõe olhar o coletivo a partir dos traumas individuais. Vejamos, o que resta a uma mulher quando lhe matam o marido (de origem turca) e a sua única criança? Mais especificamente: quando neonazis colocam uma bomba à porta da loja da sua família por razões xenófobas? É a partir desta mágoa dilacerante que se ergue o filme de Fatih Akin Uma Mulher não Chora, um retrato íntimo mas também social de uma Alemanha com feridas ainda muito abertas
No epicentro dramático está Diane Kruger (premiada em Cannes), atriz de origem alemã que tem aqui, pela primeira vez, um papel num filme alemão. Ela é, para além do rosto da tragédia, a mulher que procura assegurar a única coisa que, não diminuindo a dor, lhe pode dar alguma esperança de vida: justiça. Observando essa batalha com a frieza necessária, Fatih Akin vai focar-se sobretudo no modo como a protagonista experiencia a ausência dos que mais amava. Esse dia-a-dia impossível e miserável. Por outras palavras - roubadas a um livro de Roland Barthes -, Akin dedica o filme a avaliar "o grau de intensidade de um luto". Aí reside a força do retrato psicológico assegurado por uma atriz que assume para si toda a verdade daquela situação, e que a câmara segue com empatia e um discreto amor. O desespero que se reflete nos olhos amargamente azuis de Kruger é o vigor da mais profunda solidão. Como também escreve Barthes nesse Diário de Luto, um sentimento de "não ter ninguém em casa a quem se possa dizer: volto a tais horas ou a quem poder telefonar (dizer): cá estou, já voltei". Quando esta mulher voltou, a família já não estava.

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