Demite ou não demite

Há dois temas interessantes, e um terceiro banal, nesta polémica sobre a verdade e a mentira na questão da declaração de rendimentos dos ex-administradores da CGD. O primeiro é a sequência de erros político-administrativos na decisão e o segundo, sobre as relações entre o Presidente e o governo. O terceiro é o normal ativismo da oposição na tentativa de forçar a demissão do ministro das Finanças. A verdade, como sempre, pouco importante, deve ter estado na prioridade à questão dos elevados salários dos membros do conselho de administração e no esquecimento da legislação (antiga) que obrigava à apresentação da declaração de rendimentos. Depois temos a sequência que se sabe. Nem o governo nem a Presidência reparam inicialmente no problema? A seguir veio a reparação atamancada. No meio há dois factos políticos maiores, sobretudo considerando a natureza política deste governo. O banco público teve provavelmente a administração mais autónoma do poder político da história recente (o que acontece com a atual também) e, por outro lado, os salários negociados estiveram a um nível de grande ironia. A oposição de direita a exigir a vencimentos de gestor público também foi de alguma candura. Chegamos então à polarização em torno do tema dos sms. Aqui a visita a Belém do ministro, seguida da conferência de imprensa e do comunicado da Presidência, é uma novidade. Não é todos os dias que um Presidente diz preto no branco que não provocou a queda de um ministro por superior interesse nacional. Aliás, foram poucas as interferências dos Presidentes neste campo e, alvo de comunicação pública, que me lembre dos meus próprios dos estudos sobre o tema, nenhuma. Entre a saliência mediática e a polarização dos partidos de oposição, não há resultados positivos da economia, do défice, do desemprego, etc., que se aguente para o Governo nas últimas semanas. A doutora Manuel Ferreira Leite até pode dizer que os sms não têm importância nenhuma para os portugueses, mas isso, sendo verdade, só ilustra a sua eventual falta de vocação política. Para o melhor e para o pior, a democracia também é isso.

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Patrícia Viegas

Espanha e os fantasmas da Guerra Civil

Em 2011, fazendo a cobertura das legislativas que deram ao PP de Mariano Rajoy uma maioria absoluta histórica, notei que quando perguntava a algumas pessoas do PP o que achavam do PSOE, e vice-versa, elas respondiam, referindo-se aos outros, não como socialistas ou populares, não como de esquerda ou de direita, mas como los rojos e los franquistas. E o ressentimento com que o diziam mostrava que havia algo mais em causa do que as questões quentes da atualidade (a crise económica e financeira estava no seu auge e a explosão da bolha imobiliária teve um impacto considerável). Uma questão de gerações mais velhas, com os fantasmas da Guerra Civil espanhola ainda presente, pensei.