Demite ou não demite

Há dois temas interessantes, e um terceiro banal, nesta polémica sobre a verdade e a mentira na questão da declaração de rendimentos dos ex-administradores da CGD. O primeiro é a sequência de erros político-administrativos na decisão e o segundo, sobre as relações entre o Presidente e o governo. O terceiro é o normal ativismo da oposição na tentativa de forçar a demissão do ministro das Finanças. A verdade, como sempre, pouco importante, deve ter estado na prioridade à questão dos elevados salários dos membros do conselho de administração e no esquecimento da legislação (antiga) que obrigava à apresentação da declaração de rendimentos. Depois temos a sequência que se sabe. Nem o governo nem a Presidência reparam inicialmente no problema? A seguir veio a reparação atamancada. No meio há dois factos políticos maiores, sobretudo considerando a natureza política deste governo. O banco público teve provavelmente a administração mais autónoma do poder político da história recente (o que acontece com a atual também) e, por outro lado, os salários negociados estiveram a um nível de grande ironia. A oposição de direita a exigir a vencimentos de gestor público também foi de alguma candura. Chegamos então à polarização em torno do tema dos sms. Aqui a visita a Belém do ministro, seguida da conferência de imprensa e do comunicado da Presidência, é uma novidade. Não é todos os dias que um Presidente diz preto no branco que não provocou a queda de um ministro por superior interesse nacional. Aliás, foram poucas as interferências dos Presidentes neste campo e, alvo de comunicação pública, que me lembre dos meus próprios dos estudos sobre o tema, nenhuma. Entre a saliência mediática e a polarização dos partidos de oposição, não há resultados positivos da economia, do défice, do desemprego, etc., que se aguente para o Governo nas últimas semanas. A doutora Manuel Ferreira Leite até pode dizer que os sms não têm importância nenhuma para os portugueses, mas isso, sendo verdade, só ilustra a sua eventual falta de vocação política. Para o melhor e para o pior, a democracia também é isso.

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Bernardo Pires de Lima

Os europeus ao espelho

O novo equilíbrio no Congresso despertou em Trump reações acossadas, com a imprensa e a investigação ao conluio com o Kremlin como alvos prioritários. Na Europa, houve quem validasse a mesma prática. Do lado democrata, o oxigénio eleitoral obriga agora o partido a encontrar soluções à altura do desafio em 2020, evitando a demagogia da sua ala esquerda. Mais uma vez, na Europa, há quem esteja a seguir a receita com atenção.

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Rogério Casanova

O fantasma na linha de produção

Tal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.

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Maria do Rosário Pedreira

Adeus, futuro. O fim da intimidade

Pelo facto de dormir no quarto da minha irmã (quase cinco anos mais velha do que eu), tiveram de explicar-me muito cedo por que diabo não a levavam ao hospital (nem sequer ao médico) quando ela gania de tempos a tempos com dores de barriga. Efectivamente, devia ser muito miúda quando a minha mãe me ensinou, entre outras coisas, aquela palavra comprida e feia - "menstruação" - que separava uma simples miúda de uma "mulherzinha" (e nada podia ser mais assustador). Mas tão depressa ma fez ouvir com todas as sílabas como me ordenou que a calasse, porque dizia respeito a um assunto íntimo que não era suposto entrar em conversas, muito menos se fossem com rapazes. (E até me lembro de ter levado uma sapatada na semana seguinte por estar a dizer ao meu irmão para que servia uma embalagem de Modess que ele vira no armário da casa de banho.)