De frente para o fim

Será precioso, sobretudo para os que gostam desde o primeiro momento de descobrir as raízes próximas de uma história, saber que Paul Gadenne terá escrito este conto em 1947 e viu-o publicado - numa revista literária cuja figura cimeira era Albert Camus - em 1949. Está longe de se dissipar o cheiro de morte que tomou conta da Europa na II Guerra Mundial, que, tal como a antecedente, condicionou em larga escala a vida do autor, duas vezes obrigado a refugiar-se longe dos seus círculos naturais, o de criança e o de adulto. As reconstruções estavam na ordem do dia, a recuperação de rotinas não conseguia sobrepor-se ao estado calamitoso das economias, naquilo que estas têm de mais próximo com o quotidiano dos cidadãos, a relativa felicidade dos reencontros ficava longe de poder compensar a dimensão das perdas. De alguma forma, depois do calor e da violência da batalha, a Europa parecia um continente à deriva, demasiado ferido para retomar rumo e "velocidade de cruzeiro".

Parece, na opinião de vários estudiosos, inclusivamente Francine Lenne (cujas Notas sobre Uma Excursão à Beira-Mar servem de posfácio a esta edição), nascer daí o simbolismo da baleia, perdida, sozinha, encalhada, morta. Transformada num corpo estranho na "paisagem", em que simultaneamente exerce uma espécie de magnetismo sobre os que se deslocam para ver a massa disforme e degradada e se torna um objeto de repulsa, perturbador, inútil, nauseabundo. A baleia será, então, a própria Europa, em tempos poderosa pela dimensão e pela relativa liberdade de movimentos, agora inerte e sem vontade própria. Depois, há a analogia inevitável com Moby Dick, sabendo-se que Melville - como Kafka, por exemplo - faz parte da galeria de heróis de Gadenne. Tudo serve para estabelecer um contraste total entre os dois animais (que, do ponto de vista do imaginário, até poderia ser o mesmo), em que até uma cor comum, o branco, apresenta diferenças irreconciliáveis - o do cetáceo que atormenta o capitão Ahab é brilhante e luzidio, o deste animal morto é baço como "o de leite derramado". A baleia de Melville tem alma, tem fúria, tem memória; esta tem apenas volume e silêncio.

Num segundo plano, sem que nunca esgotem as rigorosas mas inspiradas descrições do escritor (1907-1956), há a influência que o aparecimento deste cadáver monumental causa na existência das pessoas. Que se dividem entre as excursões familiares ou de grupo socioprofissional para testemunhar o "fenómeno" e as que recusam aproximar-se de uma morte com esta dimensão. E, outra vez, com cheiro. Além dessa "intromissão" nos grupos daqueles que habitam próximo da praia, há a "interferência" nas vidas de Pierre e Odile - o homem parece entender a visita à praia em que a baleia apodrece como uma possibilidade de fuga aos hábitos, como uma porta para a surpresa, como uma espécie de "tratamento de choque" que venha abanar uma relação que se entrevê devotada mas monótona. Mais uma vez, os analistas não hesitam em ditar a proximidade entre este casal que se deixa estremecer depois da ida à praia e aquilo que ia acontecendo entre Paul Gadenne e a sua mulher, Yvonne, cujo casamento já teria, por esta altura, conhecido melhores dias.

Contas feitas, trata-se de uma narrativa que ajuda a provar uma ideia que já não deveria precisar de "argumentos": a densidade e a excelência, o fluir das palavras e o encadeamento das ideias não dependem em nada do tamanho. E este escrito de Gadenne entra, sem dúvida alguma, para o rol dos clássicos que merecem ser estudados. Mas, acima de tudo, desfrutados.

Baleia

Paul Gadenne

Trad.: José Alfaro (c/ Anabela Carvalho Caldeira)

Ed. Antígona

120 páginas

PVP: 14

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