Cratera central

A conjunção da ação desastrada do Presidente da República, da arrogância e do extremismo ideológico da coligação de direita e do contexto de formulação da alternativa do governo do Partido Socialista (PS) com apoio parlamentar do Bloco de Esquerda (BE), de "Os Verdes" e do Partido Comunista Português (PCP) funcionou, qualquer que venha a ser o desfecho final do processo, como uma bomba no sistema político que emergiu do 25 de Abril de 1974. Uma bomba que tem todo o potencial para abrir uma "cratera central" no espaço político de tração da nossa democracia.

Essa cratera pode ter engolido uma parte significativa do sistema estruturado de interesses em torno da tomada de decisão política em Portugal, o que a verificar-se será uma boa notícia e uma oportunidade para não permitir que se reconstituam teias menos claras e para que em seu lugar surjam práticas políticas mais transparentes, escrutináveis e mobilizadoras.

Este processo não acontecerá de forma automática. Não me parece, pelo que tenho vindo a conhecer dos compromissos de viabilização da eventual governação do PS, que estes ponham em causa a sua identidade de grande partido europeísta, de projeto e progressista. Esta constatação, sendo importante, deve ser vista como um ponto de partida e não como um ponto de chegada.

Neste contexto, o PS tem de dar resposta a dois desafios fundamentais. Assegurar um governo pragmático que dê resposta às necessidades dos portugueses e seja a expressão do seu programa político e em simultâneo preencher o espaço que em tempos foi um difuso "centrão" ou um sebastiânico "bloco central", protagonizando nele novas causas da modernidade e novos desafios capazes de voltar a mobilizar os cidadãos para a política ativa.

O desencanto político não é uma singularidade portuguesa, mas tem no nosso país sintomas agudos. Em Portugal e na Europa sente-se a falta de uma social-democracia positiva e atuante, que junte o que resta de outras doutrinas que fazem das pessoas o centro das suas políticas e constitua um polo alternativo forte ao modelo que tem sido aplicado pela direita tecnocrática e subserviente às dinâmicas dos mercados.

A social-democracia europeia tem pago um elevado preço político por ter ficado no "meio da ponte", num designado registo de representação da "austeridade com sensibilidade social". Este híbrido ideológico bem-intencionado não tem tido grande sucesso eleitoral, porque os eleitores tendem a fazer escolhas fortes. Ou bem que escolhem a "austeridade regeneradora" ou bem que lhe exprimem repulsa votando em quem não admite que o empobrecimento mais ou menos mitigado possa ser a base do ressurgimento económico e social.

Eis, pois, o grande desafio do PS. Governar com rigor e pragmatismo se a isso for chamado, mas sobretudo ter a capacidade de colmatar a "cratera central" ou o vazio político na esquerda, nalgumas franjas da direita moderada e no centro não ideológico, desenvolvendo aí as linhas de um novo projeto de modelo de sociedade inspirado nos valores da igualdade, da liberdade, da fraternidade, da dignidade e da felicidade, lidos à luz dos nossos desafios das alterações climáticas, dos novos direitos de cidadania e participação, da transição energética e da nova revolução digital, convocando para esse desafio as pessoas e os movimentos sociais, hoje descrentes ou fechados sobre si mesmos.

Pragmatismo e inovação. O PS pode voltar a ser o partido-chave da democracia portuguesa. Basta um pouco de golpe de asa. Portugal agradece.

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