Conversas orientais

China e África voltam a falar sobre economia, sobretudo do financiamento chinês aos esforços africanos de desenvolvimento. Um desenvolvimento a africana, diga-se, sabendo-se da brandura das exigências com que os empréstimos são concedidos, sem os requisitos de transparência, sobretudo.

Aos africanos interessa este dinheiro "fácil", que vem aos milhares de milhões e que, na prática, a ainda tem pouco impacto na vida dos povos, sobretudo por causa do terreno pouco estável em que se movimenta a política africana. Ou seja, alguns governos vêm no dinheiro chinês mais um pilar para a sua perpetuação do que uma ferramenta para a construção de economias verdadeiramente democráticas.

Mas há outras causas, como a fraca aposta africana no conhecimento e na formação tecnológica, ou seja, apesar do dinheiro, as capacidades para o transformar em desenvolvimento são ainda reduzidas, daí o novo apelo para a transferência também de tecnologia e da produção chinesa, com a instalação de indústrias asiáticas no continente, o que potenciaria o emprego. Acontece, porém, que para onde vai investimento chinês vão também trabalhadores chineses, tornando a competição para os postos de trabalho algo desigual.

Do lado chinês, na busca pela afirmação como superpotência mundial, os interesses não são poucos, desde a arregimentação de apoiantes para as suas políticas internacionais (veja-se como praticamente nenhum país africano tem relações bilaterais com Taiwan), à afirmação da sua moeda (o Renminbi) como elemento de reserva nas finanças mundiais.

No entanto, a atual cimeira traz um elemento que caberia às lideranças africanas aproveitar e para transformar as suas fraquezas em força e impor também algumas condições a Pequim: a guerra comercial com os Estados Unidos da América, que são ainda os maiores credores do continente africano. África pode reivindicar-se como um espaço de mercado, para além de fornecedora de matéria-prima. É uma oportunidade a aproveitar para "ativar" os mercados e o consumo africanos como molas impulsionadoras do crescimento e também como elementos importantes para a estabilidade social.

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João César das Neves

Donos de Portugal

A recente polémica dos salários dos professores revela muito do nosso carácter político e cultural. A OCDE, no habitual "Education at a Glance", apresenta comparações de indicadores escolares, incluindo a remuneração dos docentes. O estudo é reservado, mas a sua base de dados é pública e inclui dados espantosos, que o professor Daniel Bessa resumiu no Expresso de dia 15: "Com um salário que é cerca de 40% do finlandês, 45% do francês, 50% do italiano e 60% do espanhol, o português médio paga de impostos tanto como os cidadãos destes países (a taxas de tributação que, portanto, se aproximam do dobro) para que os salários dos seus professores sejam iguais aos praticados nestes países."