Compasso de aventura

As reedições e as recuperações de catálogo aparentemente esquecido podem ajudar a cumprir uma função primordial: dotar-nos de um quadro mais completo e mais rigoroso do autor convocado para a ribalta. Ler mais será, quase sempre, poder ler melhor, não só aquilo que circunstancialmente nos é oferecido, mas também aquilo que nos foi ficando "atravessado" por abordagens anteriores. Nesta ocasião, em concreto, o regresso a O Senhor Ventura tem dois enormes trunfos. O primeiro é, desde logo, fazer emergir alguém que não merecia nunca estar submerso numa bruma de esquecimento - Torga é, apesar de alguns juízos superficiais e/ou malévolos, uma das maiores figuras das nossas letras durante grande parte do século XX. Pelo seu carácter multidisciplinar, que nos permite viajar, sem sobressaltos mas com uma constante inquietação, pela poesia e pelo conto, sem esquecer o enorme fresco que são os seus 16 volumes de Diários, em que não se dá uma linha por perdida, em que somos constantemente desafiados para um novo posto de observação face a episódios que vão do mais trivial e íntimo ao mais perene e coletivo. Pela saudável e robusta ética que se desprende de uma obra habitualmente descrita como "telúrica", e que só a preponderância da "sociedade do espetáculo" (expressão certeira de Umberto Eco) explica ter sido injustamente atirada para o terreno dos "fora de moda". Em segundo lugar, porque o tom, a cadência, porventura o objetivo de O Senhor Ventura - originalmente publicado em 1943, num cenário de II Guerra Mundial, e "limpo das principais impurezas", diz o autor, em 1985 -, vêm efetivamente acrescentar novas cores à paleta mais constante de Torga.

O escritor apresenta-nos, no limite, um "herói" que assume uma série de características do português comum: parte à força (serviço militar oblige) do seu Alentejo, trocando um interior desolado e atrasado, mas marcante e familiar, pela grande cidade; a sua impulsividade iletrada (Ventura passa parte substancial das páginas na condição de analfabeto) atira-o para "longes terras" (Macau, antes do resto); começa a sua pessoalíssima "peregrinação", ganhando mundo (e, ao mesmo tempo, revelando mundo ao seu criador) com aventuras dignas de um navegador de outros tempos, sempre em busca da sobrevivência, lutador capaz de insólitos e, nalguns casos, infames estratagemas, nem por isso capaz de esquecer as raízes de um passado a que não deseja um regresso célere, mas que se mantêm acesas e ativas; um homem capaz de se apaixonar, mesmo sabendo que os seus amores poderão precipitá-lo para o descalabro, desconfiado mas com o condão de perdoar e de atenuar a mulher que desrespeita; alguém que só pode encontrar o melhor amigo num compatriota, muito ligado à terra-mãe, ainda que raramente conversem abertamente sobre um possível retorno; um faz-tudo, que serve como mercenário, que vai acumulando expedientes, desde o serviço como mercenário ao empreendedor que cria uma empresa de táxis para, logo a seguir, se dedicar ao fabrico e à venda de heroína; uma figura de dimensão trágica, sem precisar de grandes tiradas ou de misticismos que, certamente, lhe seriam estranhos. Com algumas exceções - muito - pontuais, todas entregues a um narrador discreto, Miguel Torga opta por não ensaiar, nesta novela, grandes juízos de valor, preferindo acompanhar as peripécias de Ventura em capítulos curtos, em ritmo avassalador, em tom quase folhetinesco. O que nos rende, contas feitas, o desenho de mais uma faceta na grandeza do autor. Há um valor intrínseco e uma dimensão de contraste que, insiste-se, vale uma surpresa. E há uma história que, salvaguardadas as diferenças de época e de geografia, continuamos a ver escrita todos os dias por todos os que acreditam poder desmentir a ideia de que "partir é morrer um pouco". Exemplar.

O Senhor Ventura
Miguel Torga
Ed. D. Quixote
176 páginas
PVP: 12,51 euros

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.