Como uma fábula

Para 2016 o que eu desejo à Grécia é que ela continue a ser crescida. Que censure, de vez, as ilusões. Que encare a política com os olhos de quem sabe as verdades desta vida

E não é que, afinal, tinha razão o outro quando chamou àquilo uma história de fadas? Não é que não passou de fantasia, de uma intoxicação do entendimento, o que nos pareceu ter a consistência, a certeza, o volume do real? Não é que fomos acordados com sopapos e perdemos o riso, o qual, aliás, estava classificado de imbecil? E não é que a ausência da gravata, essa inexplicável peça de vestuário, foi agressiva como um palavrão no ambiente das reuniões? O que esperavam eles, os mendigos, com todo o seu carrego de arrogância, aquele porte de quem exibe, como credenciais, avós remotos - e estende, no entanto, a mão vazia?

Tinha razão o outro, sim, senhores. Tratou-se de uma coisa sumamente infantil. Os eleitores foram pelas ruas de mãos dadas, aos pares, vestindo bibes. Deitaram para as urnas os seus votos como se fossem ingredientes de poções, acreditando ainda em Harry Potter. Julgo que nem sequer se apercebiam de que só estavam a brincar ao faz-de-conta. Cantarolavam lengalengas sem sentido: De-mo-cra--cia. So-be-ra-nia. Um-do-li-tá. Não me lembro de ouvir esta última sequência, mas há-de ser porque me distraí. E batiam com o pé, soltavam gritos, dados a um comportamento lamentável. Até admito que estivessem sujos de creme de ovos e de chocolates, tão gastadores, tão ignorantes do aviso económico eles eram.

Perguntamos agora: não teriam eles um pai que lhes desse um bom puxão de orelhas? Tinham. E deu. Ameaçou-os com o quarto escuro onde outra refeição não haveria se não água salobra e pão da véspera. Essas pessoas de pequena mente votaram outra vez, incorrigíveis. O pai jurou então que os expulsaria, ainda que lhe doesse o coração. A fome e o frio, mesmo num país quente, são uma perspectiva que desola. Os meninos chegaram-se para a mesa e entregaram-se à idade adulta.

Para 2016 o que eu desejo à Grécia é que ela continue a ser crescida. Que censure, de vez, as ilusões. Que encare a política com os olhos de quem sabe as verdades desta vida. Sabe, por exemplo, que o passado já passou. Não tem valor algum para os mercados a não ser, convenhamos, para o turismo. Invocar a herança de um povo que existiu há mais de dois mil anos é um recurso sem qualquer efeito. Sim, devemos-lhe a língua e a literatura e o teatro e a filosofia. Porém de que nos serve tal herança? Falamos todos inglês, queremos livros de enredo e dispensamos a beleza poética, vemos cinema americano e não perdemos tempo a filosofar.

Que nos importa a nós de onde vêm os gregos, se realmente vêm, considerando que muito sangue turco os mestiçou? Aquela desmesura no orgulho, aquela teimosia, aquele gosto pela palavra dita chocaram-nos, é certo. Pareciam chegar directamente da epopeia. Mas não passava, no final de contas, do carácter do Sul, expansivo e trágico. São os que batem com as mãos no peito e, ao verem-se atacados, contra-atacam, como um bicho inferior. São os que vão negociar com os credores considerando-os, com abuso, seus iguais. Qualquer pessoa de bom senso compreende que há que tratar aquele que tem dinheiro com o abatimento que é próprio dos pedintes, pois não existem muitas variantes para a coreografia desse encontro.

Houve neles um mérito. Ensinaram-nos algo do foro etimológico, um terreno para o qual são, por sistema, convocados. Pois ficámos por eles todos a saber que não vivemos em democracia. Mostraram-nos que o povo não tem poder algum, que o voto é um ritual vazio se a escolha feita resultar em escândalo. E se eu escrever "nação" em vez de "povo" remeto a mesma conclusão para a soberania, para o que é superior a tudo o resto e determina que o governo de um país governe esse país sem interferências.

Alguns anos atrás apercebemo-nos da existência de entes misteriosos, e ainda por cima dados ao melindre, dos quais depende a nossa segurança, e o nosso alimento, e a nossa vida. Chamam-lhes os "mercados" e supomos que são constituídos por humanos embora pouco rosto lhes vejamos. Não proíbem os votos no espaço da Europa e bem podiam proibi-los, se o quisessem. Simplesmente, não vão incomodar-se. Sabem que o verdadeiro regime está assente no poder deles, na plutocracia: quem manda é a riqueza. É o dinheiro.

Uma democracia ateniense, com as suas qualidades e defeitos, não poderia repetir-se neste século. Com muita luta e muita suspensão, o princípio alastrou e, ao mesmo tempo que se aperfeiçoava, distanciou-se. O que o processo grego revelou é que a familiaridade do conceito impede que vejamos que já não lhe corresponde uma referência activa. Que a democracia não existe como poder do povo. É um vocábulo, obcecante como a Liberdade de Éluard, extremamente amado. É um fantasma?

Dir-se-ia que o caso recente português torna falsa esta tese. Tornará? Estaria o segredo do sucesso naquele passo em que o filho mais velho põe gravata e oculta os irmãos travessos no celeiro?

Caindo em si, curada do delírio, a Grécia vê-se agora a braços com famintos que mais não querem do que atravessá-la para chegarem ao centro da miragem. Ficam no chão os mortos e os despojos.

"O que é a sabedoria?", pergunta Eurípides nas Bacantes. Tinha a disposição de espírito necessária para poder fazer essa pergunta. "O que é a sobrevivência?", é só o que podemos perguntar. Nalguma coisa andámos para trás.

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