Comédia do desassossego

Dizer que os alemães não têm humor é uma ideia feita. Mas não é daqueles estereótipos completamente infundados, que provoca aguerridas defesas do contrário. Marlene Dietrich, mítica atriz germânica, admitiu-o na sua autobiografia: "O humor não é um traço típico alemão. Por natureza, somos mais propensos à solenidade." Claro que, depois de confirmar a noção geral, Dietrich fala das exceções. Do mesmo modo, Toni Erdmann, da alemã Maren Ade, que se estreou em Portugal na quinta-feira bafejado pela crítica internacional, e nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, trabalha a exceção. Para sermos precisos, trata-se de um tal desvio à regra que o próprio protagonista é olhado pelas outras personagens com enorme estranheza. Winfried (Peter Simonischek) é um professor de música reformado e divorciado - por isso, solitário - com reduzida audiência para as suas brincadeiras espontâneas, que incluem a criação de bizarros alter ego. Após a morte do seu mais fiel espectador, o cão, decide usar o humor para reaver algo que ficou no passado: a relação com a filha, Ines (Sandra Hüller), que agora é uma mulher executiva, solteira e endurecida pelo estatuto empresarial. Toni Erdmann surge então como o alter ego que a perseguirá em Bucareste, onde decorre um complexo negócio, infiltrando-se nos contextos públicos: é a verdadeira comédia de embaraços. E é, de facto, com desconforto que também nós assistimos às performances daquele homem. Isto porque as melhores são necessariamente as mais tristes. O humor veicula o melodrama, assinalando uma camada profunda, a que acedemos pelo incómodo... Será a transfiguração das emoções uma definição possível do humor alemão? Anunciado o remake com Jack Nicholson, e apesar dele, o certo é que não terá o efeito dramático genuíno desta produção germânica.

*Crítica de Cinema

Ler mais

Exclusivos

Premium

Anselmo Crespo

E uma moção de censura à oposição?

Nos últimos três anos, o governo gozou de um privilégio raro em democracia: a ausência quase total de oposição. Primeiro foi Pedro Passos Coelho, que demorou a habituar-se à ideia de que já não era primeiro-ministro e decidiu comportar-se como se fosse um líder no exílio. Foram dois anos em que o principal partido da oposição gritou, esperneou e defendeu o indefensável, mesmo quando já tinha ficado sem discurso. E foi nas urnas que o país mostrou ao PSD quão errada estava a sua estratégia. Só aí é que o partido decidiu mudar de líder e de rumo.