Censores do gosto e da inteligência

1 A navegar no mar do Norte numas férias que para alguém como eu começam a ser monótonas, um amigo duma vida, o Mário Afonso, alertou-me para uma entrevista do editor da Relógio d'Água ao DN.

Embora o teor das referências à Gradiva e a um de entre os dois mil excelentes autores que publicámos me libertasse de qualquer inibição moral de comentar como merecem as ideias e a atitude de Francisco Vale, não o vou fazer. Sou o editor da Gradiva.

Quero, pelo contrário, oferecer a FV a solidariedade que estiver ao meu alcance na situação grave em que ele aparenta estar. Assim se confirmando rumores há muito circulantes. O fim de uma editora, mesmo a mais medíocre, sem originalidade, imaginação e ética profissional, não deve ser acolhido como uma boa notícia por ninguém. Vou tentar ajudá-lo fazendo algumas considerações sobre a realidade actual da edição em Portugal. A minha longa experiência de editor e a obra reconhecida conferem autoridade para isso. Mas devo criticar a ideia de literatura que apresenta, redutora e mesmo aberrante. FV deu-me também motivo para escrever sobre JRS, um autor apreciado em todo o mundo por um larguíssimo espectro de leitores, mas isso fica para outra oportunidade.

O que tenho mesmo de repudiar é a tentativa de FV de condicionar o gosto e a inteligência dos leitores, decretando o género de literatura que devem ler e apreciar. Tentativa intolerável a recordar tempos e déspotas sinistros. Juiz do gosto e da inteligência como na história da literatura muitos quiseram ser, como com Eça e Camilo e muitos outros.

2 Nem tudo o que é novo é bom, muitas vezes na História o novo foi mesmo o horror. Hoje, os editores são raros. Os que havia, de gerações notáveis, que ainda viveram a censura e a resistência à ditadura, foram desaparecendo. Restam quais? Das gerações seguintes, que conviveram com eles, alguns trabalham hoje para os chamados "grandes grupos" ou patrões que, com alguma excepção, procuram apenas, legitimamente, aliás, o retorno financeiro dos investimentos. Com expectativas de lucro, no entanto, que num país com o mercado do nosso, os níveis de leitura, a escola e a universidade que temos, não são realizáveis.

Dos novos, raríssimos se revelaram editores. Condicionados à procura do best-seller, tendo de dominar algum pouco provável interesse cultural pela procura dos títulos de referência de qualidade, com previsível reduzida venda. Hoje tornou-se dominante um outro modelo de editora e de editor. E é por isso a inflação que se vê de ficção e dos outros géneros de livros em que se supõe haver mais possibilidades de ganhar a lotaria do best-seller. O mesmo se verifica com a exposição nas livrarias, porque procuram também sobreviver. Praticamente só dão visibilidade, só apostam, naqueles géneros de livros. Solução que me parece estar a ser desastrosa. E como não existe uma "loja" onde se comprem direitos para best-sellers garantidos, os grandes grupos e as editoras de maior dimensão, que precisam de editar e facturar muito para fazer face às maiores despesas gerais que a sua dimensão implica, têm devoluções dramáticas e os armazéns cheios de livros que nem a preço de custo se venderiam - papel sujo, que vale menos do que papel branco. Uma fuga para a frente, que não terá um desfecho feliz. E assim vai diminuindo a diversidade, na edição e na exposição e desaparecendo leitores...

Tudo em relação de causalidade implicante com a redução dos níveis de leitura - na universidade quase não se lê (?!). Devido, em parte, mas sobretudo, à devastação educativa dos últimos 40 anos, em que não foi construída a escola que nunca tivemos, para enfrentar o que neste mundo novo foi afastando os jovens - e os adultos agora, até, digamos, 50 anos - do interesse pelo conhecimento e, logo, pela leitura. As gerações que liam e se instruíam estão a desaparecer significativamente. Quando começarão a ser renovadas?

As grandes editoras vão, assim, tendendo a abandonar o nicho de público, culturalmente fundamental, mas pouco rendível, para o qual, entre outras, a Gradiva continua, no nosso caso inabalavelmente, a trabalhar.

Editando em todas áreas do conhecimento e tendo criado mesmo, para uma delas - a da ciência -, um público leitor que ainda não havia, publicando pouca ficção (mas sempre a melhor..., como é o caso da que JRS pratica nos géneros que cultiva), a Gradiva, mantendo estrategicamente a pequena dimensão, inovadora e inconformista, rodeando-se de amigos competentes e entusiastas, constituiu um fundo editorial de grande qualidade e mais perene. Fundo que continua a tornar a Gradiva financeiramente sustentável e independente. Por isso (tal como algumas outras), tem o valor que tem como empresa.

3 O caso da Relógio d'Água ilustra, infelizmente, uma situação inversa. Terá sido desde sempre uma editora frágil. Porque não foi capaz de trazer nada de original, criar a necessidade de leituras novas. Que me lembre, nunca revelou um autor de mérito. Copiou, tenta imitar. Um dia FV disse-me: "A Gradiva é o meu modelo de editora." E tentou, tenta imitar-nos, mas não foi, não é capaz.

Quando FV revela não ter querido publicar Gonçalo M. Tavares, não ter percebido o escritor que este já era ou viria a ser no género que cultiva, repare-se como está a reconhecer a falta da competência e intuição de que precisaria para ser o editor que proclama ser mas não é nem nunca foi.

FV tem incorrido num erro estratégico que se foi tornando cada vez mais grave. Limitou-se cada vez mais, regra geral, a publicar o que já foi publicado, os clássicos (fundamentais, claro, mas que a Presença, p.ex., reedita com muito melhor qualidade editorial). Obras já no domínio público, não implicando pagamento de direitos, nem em muitos casos, suponho, de traduções. Tem ainda conseguido juntar a esses clássicos autores descobertos por outros editores, ou títulos de que estes desistem ou que consegue, por razões diversas, "roubar-lhes" - num caso à Gradiva, apanhando-nos distraídos. De facto, como se nota, não parece ter preocupações de bom convívio profissional. No caso de Agustina e da Babel, parece-me não ter tido mesmo o mínimo embaraço de consciência, fosse qual fosse o modo legítimo com que apanhou essa autora.

Indo por este caminho - lamento não ver que possa agora seguir outro -, a Relógio d'Água valerá como empresa ainda cada vez menos do pouco que vale.

4 Relativamente à ideia redutora, quanto a mim aberrante, que FV tem do que é literatura, deve concluir-se que teria recusado, na época, escritores e obras enormes, muitas das quais anda agora a reeditar, "descobrindo" a pólvora depois de estar descoberta. Anna Karenina, provavelmente Guerra e Paz, A Servidão Humana, Cristo Recrucificado, sei lá? Tantos grandes autores e obras que formaram e fascinaram gerações, Steinbeck, Hemingway, Remarque, Moravia e os italianos, os franceses, Madame Bovary, Stendhal, Roger Vaillant, tão empolgante e instrutivo, Dumas, Walter Scott, Sabatini, Verne, Cooper, Greene, Chandler ou Hammett, os grandes brasileiros, etc. E Redol, Abelaira, Rodrigues Miguéis e Camilo! Apostaria mesmo Eça.

Que fazer, agora? Infelizmente, digo-o com tristeza, a única solução para FV será, com objectividade e coragem e o mais rapidamente possível, assumir que a sua experiência de editor foi, é um falhanço equivalente ao que confessa ter sido a sua experiência de escritor.

Editor da Gradiva

Dos convidados

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