Carta do Brasil

Amigo, soube que este país onde vivo há cinco anos te é querido e que estás preocupado com as histórias que tens ouvido contar sobre ele. Não quero que faças como a minha mãe, que se assusta com a notícia de um assalto a 100 km do lugar onde moro, por isso, deixa-me tentar esclarecer-te.

Em suma, o que se passa aqui é um país extremamente dividido. A última eleição já o tinha deixado adivinhar, mas com a crise económica deste ano e a corrupção na Petrobrás a contestação ao governo piorou. Houve radicalismos dos dois lados. Da esquerda, líderes sindicais disseram para as pessoas se defenderem com armas contra quem ataca o governo. Da direita, há quem peça a volta da ditadura militar.

Isto, repara, é os extremos. Tenho muitíssimas generalizações boas a dizer sobre este país, mas aqui vai uma má: os brasileiros são escandalosos. Já vi brigas em que um empurrão deixa 20 pessoas a gritar umas com as outras (e a briga, bem entendido, termina nesse primeiro empurrão). A maioria do povo está simplesmente preocupada com o emprego e a vida. Por outro lado, cai-se muito na tentação de tratar a política como se os partidos fossem clubes de futebol. É um desafio pensar além da gritaria, mas vai-se podendo.

O que realmente parece estar a acontecer é o seguinte:

- A Dilma deu uma guinada neoliberal neste segundo mandato e tenta conter a crise. Cortar despesas, aumentar impostos, aumentar a luz, etc. Está a governar com medidas contrárias às propostas da campanha, estilo "elegemos o Proudhon e saiu-nos o Friedman". O cidadão não ficou contente com isso.

- Operação Lava-Jato: dois escândalos gigantes de corrupção durante as legislaturas de um só partido não são coisa pouca (e sempre me intrigou ninguém salientar que foi durante essas mesmas legislaturas que a corrupção foi julgada e condenada). Hoje o PT está bem amassado, o Sudeste odeia ainda mais o Nordeste e os ricos odeiam ainda mais os pobres. Porém, os envolvidos não são só políticos do PT. Do Sr. Cunha falo mais adiante.

- Impeachment: a ideia começou a rondar com mais força neste ano, mas não veio de partidos, veio de movimentos cívicos estranhos e com apoios duvidosos. Fala-se de grupos económicos americanos, não sei, pode ser boato. Eles tentaram conseguir o apoio dos partidos, claro, mas nunca ganharam impulso suficiente para levar a ideia avante, e os políticos que lhes davam trela acabaram por recuar. No entanto, a ideia de impeachment continua de pé, com a possibilidade de as contas do primeiro mandato da Dilma serem reprovadas pelo Tribunal de Contas por "pedalada fiscal", o que em Portugal se diria "contabilidade criativa".

- Eduardo Cunha: o presidente da Câmara dos Deputados, que é PMDB e portanto membro da coligação no poder, é também evangélico e de direita rígida. Tem um domínio do regimento digno do Frank Underwood e manobra as votações da câmara com mestria, chegando a conseguir a aprovação da redução da maioridade penal um dia depois de ela ter sido reprovada. Recentemente declarou que não era mais um apoiante do governo e, tentando fazer a Dilma cair, reuniu um séquito de deputados e pô-los a aprovar legislação contrária às políticas de austeridade, colocando a mulher na situação de ter os membros da sua própria coligação a legislar contra ela.

A situação estava assim até há umas duas semanas, e eu achava que o melhor que a Dilma tinha a fazer era renunciar e ajudar depois a dar força ao PT numa reeleição. Difícil, porque ela estava com 8% de aprovação, mas quem sabe, né? No entanto, nos últimos dias o Sr. Cunha levou três bordoadas fortes, e vai custar-lhe recuperar. A Dilma, agora, está por cima.

Por um lado, ele perdeu o apoio dos empresários, que perceberam que as leis aprovadas para forçar a Dilma a sair iriam ser piores para a economia do que deixá-la lá no lugar. Sinal indisfarçável: há uma semana, quase tudo o que é meio de comunicação criticou a Câmara dos Deputados de cima abaixo. Saiu até notícia na Folha dizendo que os Marinhos se tinham reunido com o Sr. Cunha para discutir a preocupação com a economia - e depois deu nisso. Se o grupo Globo se distancia da oposição ao PT, acredita, não é coincidência.

Depois, a Dilma, numa jogada brilhante de velha guerreira, conseguiu que o Renan Calheiros, que lidera o Senado, ficasse do lado dela. Isso significa que a câmara alta do Congresso vai atrasar a votação dessas leis. Ou seja, no final, Dilma ganhou o Congresso.

(Repara que ela jogou com a atomização do PMDB; o vice dela, Michel Temer, é PMDB; o Renan também; contra eles, o Sr. Cunha estava a tentar ganhar força dentro do seu próprio partido, talvez para se candidatar a Presidente nas próximas eleições).

Por fim, o Sr. Cunha acabou de ser denunciado na Operação Lava--Jato, o que, acredito, o vai deixar a cantar fininho durante uns tempos. Cortaram-lhe a possibilidade de fazer pose de justiceiro, e agora não se vai atrever tanto.

Os economistas falam que a economia vai entrar nos trilhos no ano que vem. Se a Dilma se aguentar até 2016, é possível que fique até ao fim do mandato. A inflação está alta, é verdade, mas nada que ver com hiperinflações da era Collor: simplesmente, ultrapassou o limite que se esperava, e, como o trauma da inflação alta é muito grande por aqui, lá veio o escândalo. Posso dizer-te que, com ou sem crise, estes foram os dois anos em que mais trabalhei na vida, por isso...

Cenas dos próximos capítulos: esperar a decisão sobre as contas do governo; ver se o PMDB não vai querer dar uma facadinha nas costas da amiga Dilma; ver até que ponto o pacote fiscal vai surtir efeito ou não.

Espero que estejas bem, mando-te um abraço e deixo-te um conselho: sempre que leres ou vires algo sobre o que se passa aqui, afasta a fumaça. Se não estiver infetado por tendenciosidade, deve estar pelo escândalo.

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