Cannes, Estoril, Cannes

Estive com David Lynch três vezes em circunstâncias mais ou menos surreais. Com Lynch, a palavra surreal é uma adenda redundante. A primeira vez foi numa entrevista em 2001 no Hotel Carlton de Cannes, durante o festival, por alturas do lançamento de Mulholland Drive. Uma conversa fascinante toda ela em moldes de enigmas e advinhas. O cinema não se explica, não se cansava ele de dizer. O mistério é feito por nós. E Lynch, sempre com um sorriso gentil, divertia-se com a perplexidade de alguma imprensa do festival (mal imaginavam certos críticos que, uns anos depois, o seu cinema iria desembocar no experimentalismo radical de Inland Empire). Impossível não reparar na forma como o génio se expressava, jogando muito com as mãos, com os dedos... Há 11 anos, o segundo encontro, quando fui convidado para moderar com Paulo Branco uma conversa em forma de masterclass no primeiro Estoril Film Festival (agora Lisbon & Sintra Film Festival), no Centro de Congressos do Estoril. Uma palestra onde se percebia o culto imenso dos portugueses pelo criador de Twin Peaks. A sala estava a abarrotar e a química com o público era total. Lembro-me perfeitamente que nessa altura estava apenas interessado em falar e promover os prazeres da meditação transcendental. Lynch apostou na conversa mística, mas esteve sempre divertido e a pedir cafés. A sua presença em Portugal não chegou às 24 horas e durante todo esse tempo nunca comeu, apenas quis fumar e recorrer à cafeína, tendo ainda tempo para uma cerimónia musical com meditação num ermo no Estoril. Por fim, neste domingo, no jantar do encerramento do Festival de Cannes voltei a cruzar-me com ele. Voltei a perceber que tem uma aura. E o seu mistério traz simpatia, não sendo por acaso que depois de Will Smith era a celebridade mais solicitada para selfies. Lynch também sabe ser pop star.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

"Orrrderrr!", começou a campanha europeia

Através do YouTube, faz grande sucesso entre nós um florilégio de gritos de John Bercow - vocês sabem, o speaker do Parlamento britânico. O grito dele é só um, em crescendo, "order, orrderr, ORRRDERRR!", e essa palavra quer dizer o que parece. Aquele "ordem!" proclamada pelo presidente da Câmara dos Comuns demonstra a falta de autoridade de toda a gente vulgar que hoje se senta no Parlamento que iniciou a democracia na velha Europa. Ora, se o grito de Bercow diz muito mais do que parece, o nosso interesse por ele, através do YouTube, diz mais de nós do que de Bercow. E, acreditem, tudo isto tem que ver com a nossa vida, até com a vidinha, e com o mundo em que vivemos.

Premium

Marisa Matias

Mulheres

Nesta semana, um país inteiro juntou-se solidariamente às mulheres andaluzas. Falo do nosso país vizinho, como é óbvio. A chegada ao poder do partido Vox foi a legitimação de um discurso e de uma postura sexistas que julgávamos já eliminadas aqui por estes lados. Pois não é assim. Se durante algumas décadas assistimos ao reforço dos direitos das mulheres, nos últimos anos, a ascensão de forças políticas conservadoras e sexistas mostrou o quão rápida pode ser a destruição de direitos que levaram anos a construir. Na Hungria, as autoridades acham que o lugar da mulher é em casa, na Polónia não podem vestir de preto para não serem confundidas com gente que acha que tem direitos, em Espanha passaram a categoria de segunda na Andaluzia. Os exemplos podiam ser mais extensos, os tempos que vivemos são estes. Mas há sempre quem não desista, e onde se escreve retrocesso nas instituições, soma-se resistência nas ruas.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Ser ou não ser, eis a questão

De facto, desde o famoso "to be, or not to be" de Shakespeare que não se assistia a tão intenso dilema britânico. A confirmação do desacordo do Brexit e o chumbo da moção de censura a May agudizaram a imprevisibilidade do modo como o Reino Unido acordará desse mesmo desacordo. Uma das causas do Brexit terá sido certamente a corrente nacionalista, de base populista, com a qual a Europa em geral se debate. Mas não é a única causa. Como deverá a restante Europa reagir? Em primeiro lugar, com calma e serenidade. Em seguida, com muita atenção, pois invariavelmente o único ganho do erro resulta do que aprendemos com o mesmo. Imperativo é também que aprendamos a aprender em conjunto.