Brincar aos Médicos

Seria apenas mais uma pausa no estudo para os doze mil estudantes de Medicina do país, não fosse o surgimento do seguinte cabeçalho: "Acesso à especialidade é importante, mas ministra diz que nem todos os médicos têm de ser especialistas". Face a estas preocupantes declarações, que denotam um profundo desconhecimento do Sistema Nacional de Saúde, do papel do médico e da importância da prestação de cuidados de saúde com qualidade, surge o desejo de arrumar a mochila e abandonar o barco.

Passo a explicar. Não é a primeira vez que isto acontece, andarem a brincar aos médicos, e estamos conscientes que dificilmente não se repetirá. Este barco, no qual estamos todos muito apertadinhos (existem efetivamente demasiados estudantes para as capacidades formativas das Universidades), já há muito que não tem quem lhe dê o rumo merecido. Faz falta um planeamento efetivo dos recursos humanos em Medicina, que aponte para soluções eficazes e sustentáveis, como a redução do numerus clausus e o redimensionamento dos concursos especiais atualmente em vigor.

Pelo contrário, esse barco desgovernado acaba apenas a embater em pontas de iceberg como este, que são nada mais que a repercussão visível de um muito maior problema - a incompreensível, incontornável e perversa falta de vontade política em resolver o problema da ausência de formação especializada para todos, que diz respeito não só aos utentes do SNS mas também a todos os contribuintes.

Um Serviço Nacional de Saúde menos diferenciado, com cuidados de saúde menos especializados traz prejuízos para os doentes. Por um lado, o atendimento é realizado por médicos sujeitos a menos anos de prática clínica supervisionada por um médico mais graduado, por outro, estes acarretam enormes custos financeiros (104,5 milhões de euros gastos em prestadores de serviço em 2018, o valor mais elevado de que há registo), que poderiam ser recanalizados para a contratação de especialistas. Faz-se menos, pior, e mais caro. Onde está a boa gestão aqui?

O tempo passa e o problema acentua-se, tal qual doença que lentamente vai corroendo o Sistema. Na visão de quem cumpre lentamente o seu papel e vai remando para destino incerto, na esperança de poder alcançar uma formação especializada que o torne ainda mais útil para a Sociedade, diria que se exige apenas uma coisa: Chega de brincar aos médicos. Aos médicos indiferenciados, aos médicos sem rumo, aos médicos incertos.

O Serviço Nacional de Saúde é de todos. E todos merecem um acesso aos cuidados de saúde com a qualidade a que têm direito. Os portugueses merecem mais do que meras propostas avulsas, insustentáveis, e que visam apenas servir certas agendas políticas. As verdadeiras soluções são já conhecidas, falta somente a vontade política para as implementar.

Não deixemos, acima de tudo, que brinquem com a Saúde e o dinheiro dos doentes, da mesma forma que o têm feito com os médicos - a má gestão destes tem, inevitavelmente, impacto na Saúde de todos. Podem querer médicos indiferenciados, mas médicos indiferentes, esses, nunca os terão.

Estudante do 4º ano do Mestrado Integrado em Medicina

Presidente da Associação de Estudantes da FMUP

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