Bourdain, inquieto por vocação

Anthony Bourdain, norte-americano de Nova Iorque, foi o autor do livro Cozinha Confidencial, após ter sido empresário e chef de casa icónicas como Les Halles, chamando a atenção para o que se passa realmente no mundo da hotelaria e restauração. Informalidade económica, droga, imigração ilegal e crime, ele próprio protagonizou uma carreira repleta de experiências que nem a imaginação mais fértil é capaz de conceber. Encontrou uma vocação tardia enquanto divulgador pelo mundo fora do que em cada lugar lhe pareceu diferente e digno de registo, angariando uma audiência global que nunca mais parou de o seguir e ouvir. Fez dois programas sobre nós, um no Porto outro em Lisboa, que mesmo não reunindo consensos, vale a pena ver e guardar. Percebe-se em ambos a preocupação de se encontrar e aprender com os cozinheiros como ele, na fronteira do conhecimento e na linha mais criativa.

Aos 61 anos, ainda com muito para dar, deixou-nos. Talvez tenha deixado legado ainda não publicado mas o que deixou seguramente foi a renúncia ao pré-estabelecido e ao politicamente correto. Sempre que alguém nos morre por suicídio deixa inevitavelmente uma nota de culpa nos nossos corações, por aquilo que talvez pudéssemos ter feito e não fizemos. Em relação a Bourdain, há o aspecto estético da vida a ter em conta, as horas intermináveis que gostava de passar a provar pratos especiais, petiscos, em amena cavaqueira e sempre com o sentido de descoberta aceso como numa criança. O seu lado revolucionário, contudo, é incontornável nele que nunca quis criar uma nova ordem nem tão pouco uma nova forma de pensar. Ele é e foi o seu principal manifesto. Vamos por isso sentir a sua falta.

Fernando Melo é crítico gastronómico

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