Apupos, ovações e silêncio

Os jornalistas acreditados para o Festival de Cannes não têm direito a poder ver os filmes na sessão de gala oficial. Mas quem perder a sessão para a imprensa pode sempre tentar o impossível: pedir ao protocolo um convite que tenha sobrado. Pois bem, este jornalista perdeu a sessão de The Meyerowitz Stories , de Noah Baumbach, o segundo filme Netflix em competição, e tentou o tal bilhete que obriga à subida da escadaria. A isso e ao uso obrigatório do smoking. E, à última da hora, sorte inexplicável, chamam-me do protocolo e lá tinha bilhete. Um bilhete de algum VIP que se esqueceu de o levantar. O lugar era precisamente na fila nobre dos convidados, duas cadeiras ao lado de Julianne Moore, amiga de Baumbach, e à beira do lugar onde as estrelas do filme iriam estar (Dustin Hoffman, Ben Stiller, Adam Sandler e Emma Thompson). Ver um filme com o cerimonial religioso de Cannes é uma outra experiência. Sobra sempre aquela sensação de acontecimento. Percebemos também que os grandes nomes também tremem. Percebi de perto o nervosismo de Greta Gerwig, a atriz que é companheira do realizador e a tremideira de Sandler. No final, ovação. Palmas sentidas mas nada verdadeiramente eufórico, exceto quando a câmara da sala Lumière apontou em relação ao rosto comovido de Dustin Hoffman. Aí, sim, a sala veio abaixo. 10 minutos de aplausos histéricos e muitos "bravôs" pelo meio. Mais do que o aplauso à sua interpretação, os três mil espectadores estavam a aplaudir toda uma carreira. As lágrimas de Hoffman contagiaram todos aqueles VIP. Mas na manhã seguinte os apupos voltaram em força na sessão de imprensa de The Killing of a Sacred Dear, de Yorgos Lanthimos, e, no caso de Happy End, de Haneke, um silêncio perfurante. Mas o que valem os assobios em Cannes quando Crash, de Cronenberg, há duas décadas, era monumentalmente vaiado?

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