Women in black

Gonçalo Lopes

Fixemo-nos na imagem: uma plateia quase integralmente vestida de negro. Um protesto que entrava pelos olhos antes de se ouvir os discursos. Um símbolo de união que, como disse a Wonder Woman Gal Gadot na passadeira vermelha, se traduziu em elegância. Ontem à noite, na 75.ª cerimónia dos Globos de Ouro, as mulheres estavam mais fortes do que nunca, contra o assédio sexual. A exceção ao dress code fez-se notar na figura da própria presidente da Hollywood Foreign Press Association, Meher Tatna, que se apresentou no palco com uma indumentária vermelha. Quem não reparasse que, apesar disso, ela estava a usar um pin do movimento Time"s Up poderia ficar baralhado Calma. A razão da escolha teve simplesmente que ver com os rituais da sua cultura indiana, segundo a qual, tratando-se de uma celebração, deveria usar uma cor festiva.

E de facto não foi pelo tom fúnebre dos vestidos que se conduziu a cerimónia. Antes pelo contrário: de Nicole Kidman a Reese Witherspoon, passando por Laura Dern, Elisabeth Moss (todas vencedoras), e ainda pela bela tirada de Natalie Portman na entrega do galardão ao melhor realizador ("E aqui temos os, apenas homens, nomeados"), os discursos de esperança dominaram o encontro. Mas foi Oprah Winfrey quem protagonizou o momento mais alto, ao receber o Prémio Cecil B. DeMille. Com as suas palavras certeiras, que tanto defenderam o trabalho da imprensa nestes tempos complexos como encorajaram as jovens que têm sonhos, ela fez rejubilar a sala inteira.

Por fim, o filme vencedor - Três Cartazes à Beira da Estrada - e a sua protagonista, Frances McDormand, no papel de uma mãe que procura vingança pela violação e a morte da filha, coroaram a noite. E talvez estes prémios mereçam uma reflexão elementar: ainda estamos a falar de cinema ou da atualidade dos seus temas?