Uma romântica aventura marítima

Inês N. Lourenço

O que levou Jacques-Yves Cousteau à sua romântica aventura marítima? O que é que o fez trocar a farda da marinha francesa pelo icónico barrete vermelho de comandante? Segundo A Odisseia, de Jérôme Salle, foi como que um atalante, um desejo súbito de descobrir e possuir os oceanos, com um globo terrestre na mão. O Atalante? Filme sublime de Jean Vigo, com um barco assim batizado, que deveria ser o lar para os recém-casados Jean e Juliette. Algo semelhante aconteceu com Cousteau e a mulher, Simone, que vendeu as joias para recuperar o navio Calypso, e fazer dele a sua morada. Uma vida no alto-mar que os foi distanciando, mesmo no espaço abreviado dessa casa flutuante. Lembrei-me de O Atalante não apenas pelas coincidências de sentido e conjuntura, mas pelo lirismo que encontramos nesse título francês de 1934, e que muito dificilmente podemos encontrar no filme de Salle. Cheio de imagens subaquáticas - as que deram sentido à viagem fantástica de Cousteau pelo manto azul da terra - A Odisseia pouco deslumbra nessa captação de um ecossistema. É como se víssemos panfletos turísticos, daqueles que atraem a atenção em expositores de agências de viagem. Aliás, todo este biopic tem essa estrutura de "episódios-postais", uma sucessão de momentos mais ou menos relevantes que nunca chegam a adquirir profundidade. Jacques Cousteau que, com espírito conquistador (tanto em relação ao mar como em relação às mulheres), acreditou ser possível ao homem viver debaixo de água num futuro não muito longínquo, é retratado num filme incapaz de recuperar um décimo da magia que quis levar às pessoas através dos seus documentários... Por mim, trocava este pobre A Odisseia pela magnífica e única cena subaquática de O Atalante, em que Jean procura uma visão da sua Juliette por entre a neblina líquida.

Crítica de cinema