Uma canção de despedida

Inês N. Lourenço

Quando se soube da morte de Harry Dean Stanton (1926-2017), o seu amigo David Lynch foi dos primeiros a reagir à notícia com uma genuína manifestação de amor, recordando-nos que Stanton era um grande ator, para além de um grande ser humano. Este juízo leva-nos instantaneamente ao famoso episódio em que Stanton declinou o convite para ser Frank - a personagem atroz de Blue Velvet (1986), que acabou por ser um grande papel de Dennis Hopper -, porque não se sentia capaz de fazer um filme tão violento… Ele era assim. E as suas duas grandezas, de ator e de ser humano, estão bem patentes em Lucky, o filme que lhe canta uma terna canção de despedida, embrulhando os seus dados biográficos em ficção. Aqui seguimos um homem chamado Lucky, mas não deixamos nunca de adivinhar naquele rosto franzino as estradas que nos levam a Stanton. Por isso, John Carroll Lynch, o realizador, tem tanta razão quando diz que esta personagem é a essência Stanton, mesmo não sendo ele. O homem que seguimos está a debater-se pela primeira vez com a ideia da morte, e o realismo é a única forma que tem de lidar com ela. Mas há também uma dimensão espiritual que atravessa esta jornada com invulgar subtileza. Veja-se, por exemplo, a cena em que David Lynch, aqui no papel comovente de um homem desorientado com o desaparecimento do seu animal de estimação, expõe magnificamente aos outros a solidão que o consome, com a frase: “Há coisas neste universo, senhoras e senhores, que são maiores do que nós. E um cágado é uma delas.”

Lucky é um filme de força extraordinária, que nos faz olhar para as coisas maiores através dos eventos mais simples. Algo que nasce da própria essência de Harry Dean Stanton, o homem dos cigarros e das canções, que se deixa filmar no encanto da sua fragilidade física e da verdade interior.