Um festival gourmet com música forte

Rui Pedro Tendinha

Ao contrário do que se possa pensar, as primeiras sessões a esgotar na Berlinale são as mais caras. Um filme com bilhete a 95 euros e muito antes de o festival começar já está mais do que esgotado? Sim, a culpa é da secção Culinary Cinema, onde os espectadores assistem ao filme cujo tema são os vinhos ou a comida e, depois, têm direito a um jantar de luxo no restaurante do festival, uma tenda bem aquecida com muito vermelho aveludado.

Pela primeira vez, o festival quis que um jornalista português estivesse presente numa destas sessões e na rifa calhou Our Blood Is Wine, de Emily Railsback, sobre o sommelier de Chicago, Jeremy Quinn, numa viagem à Geórgia. O expert de vinhos está encantado com a forma como nesta antiga república da União Soviética o vinho é feito com técnicas milenares.

Our Blood is Wine é tecnicamente muito pobre, mas sincero na sua busca pelo folclore vinícola. No jantar, propriamente dito, percebe-se que o sabor do vinho, que é amadurecido em pipas especiais abaixo da terra, nunca irá ser consensual. Jeremy Quinn deveria ter escolhido a Bairrada ou o Douro como destino...

Com barriga cheia, a caminho do hotel, há imagens que continuam a não sair do nosso caminho: o rosto de Helena, em Russa, de Salaviza e Ricardo Alves Jr. ou a cena de sexo oral feminista de The Real State, dos suecos Alex Petérson e Mans Másson.

Talvez por influência do vinho georgiano, os sons que ouvimos nesta maratona de cinema, que começou na semana passada, também não desgrudam. Se no ano passado as canções de Sufjan Stevens para Chama-me pelo Teu Nome foram caso de vício, o mesmo se pode dizer dos temas clássicos cantados pela voz feminina de Wim Mertens, capazes de ficarem colados de modo drástico no nosso ouvido.

Um festival musical, pois então, onde também entrou a música do brasileiro Rodrigo Amarante nessa desilusão chamada Operação Entebbe, do compatriota José Padilha, ou os sons pesados e delicados dos Ramstein em Touch Me Not, de Adina Pintilie.

E que me perdoe Alexandre Desplat, compositor de Ilha dos Cães, de Wes Anderson, mas o som que permanece desse filme é a insustentável potência dos tambores taiko, que abrem e fecham esta animação. Depois há ainda o "prazer envergonhado" da canção romântica italiana de Gianni Bela, no italiano Figlia Mia.