Tudo é marketing

Rui Pedro Tendinha

Enquanto escrevo estas linhas está Sir Ridley Scott a dirigir Christopher Plummer em Todo o Dinheiro do Mundo, filme sobre o rapto de um dos netos do bilionário Jean Paul Getty. São as famosas cenas de substituição de Kevin Spacey, algo inédito em Hollywood num filme desta escala e com tão pouco tempo antes da estreia - a Sony já enviou um comunicado a reforçar que a estreia para 22 de dezembro se mantém e que há uma "aposta nos Óscares". O impensável está a acontecer: há um ator a ser apagado numa prática do mccarthismo ou do mais vil estalinismo. Só que não, tudo isto é a lei do mercado. É a Sony Pictures a tentar salvar um filme caro. Cedo se percebeu depois dos escândalos sexuais em torno de Spacey que Todo o Dinheiro do Mundo iria ser falado pelo facto de ter Spacey num papel sonante. Cedo se percebeu que Spacey iria matar o filme e, mesmo sem o seu nome no cartaz, haveria protestos contra o estúdio. O mais irónico é que antes disto tudo era a própria Sony que estava a apostar num forcing para Spacey ser nomeado para os prémios de melhor ator secundário. Agora, orgulhosamente, aposto que vai fazer o mesmo com o veterano Plummer que tem nove dias para ganhar um Óscar. E porque o marketing é que triunfa sempre no fim do dia, isto foi o melhor que poderia acontecer a Todo o Dinheiro do Mundo, a partir de agora um potencial sucesso de bilheteiras devido à curiosidade que conseguiu reunir. Não se duvide de que muitos vão pagar o bilhete para matarem o espanto de "como é que eles conseguiram apagar o Spacey?!" Vivemos dias muito tristes.

Antes deste episódio, Todo o Dinheiro do Mundo não estava na pole position da temporada dos prémios, estando muito atrás do buzz de filmes como The Post ou The Shape of Water. Por outro lado, I Love You, Daddy, de Louis C.K., nestas regras de mercado, é que não tem salvação.

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