Saúde e a história que não será contada

César AvóDavid Neto

Se o leitor tivesse de optar entre gastar um milhão de euros para salvar 200 pessoas agora ou gastar um milhão de euros para salvar 600 pessoas daqui a 20 anos, que escolha faria?

A resposta parece óbvia, mas poucos são os dirigentes que escolheriam a segunda opção e poucos são os cidadãos que a exigiriam. Se até hoje a escolha era lógica, cada vez mais ela se torna indispensável. Com o envelhecimento da população, o aumento das doenças não comunicáveis (por exemplo, problemas cardiovasculares, doenças neurodegenerativas, diabetes) e das perturbações mentais, o alvo não é exclusivamente na cura, mas o de adiar ou evitar destas condições e a redução da incapacidade. Em resposta, os sistemas de saúde modernos começam a gastar mais dinheiro na prevenção e intervenção precoce.

Para isso acontecer, tem de se aumentar a aposta no futuro. Mas tal esbarra com uma barreira. Apesar das tais 400 pessoas que hipoteticamente não sobreviverão, nós somos muito mais sensíveis à não resposta a um doente oncológico que morre numa lista de espera ou a uma pessoa que se suicida depois de ter alta numa urgência, por critérios mais administrativos do que clínicos. Somos muito mais sensíveis a histórias de pessoas que sofrem hoje do que a histórias de pessoas que ainda não sofrem. Pela nossa sensibilidade a narrativas concretas importa contar a história dessas pessoas.

Quando há 20 anos um decisor alocou os recursos à sua disposição, deparou-se com dilemas semelhantes ao que encabeça este artigo. E a sua resposta terá sido no sentido de responder às necessidades exigidas pelos cidadãos da altura. Seguindo o nosso exercício inicial, hoje mais 400 pessoas vão morrer por causa dessas opções. O doente oncológico que recebeu o diagnóstico tardio não foi orientado para práticas de autocuidado. A pessoa que se suicida à saída da urgência não foi encaminhada para psicologia quando a sua depressão grave ainda era apenas um problema de ajustamento escolar. O homem que morre precocemente de ataque cardíaco morre sem nunca ter beneficiado de uma intervenção para reduzir o consumo de álcool que contribuiu para o ataque.

Agora, a verdadeira questão que resta é se queremos contar esta história daqui a 20 anos ou se queremos modernizar os objetivos do nosso Serviço Nacional de Saúde.

Presidente do Conselho de especialidade de psicologia clínica e da saúde