Querido Eduardo Mãos de Tesoura

Inês N. Lourenço

O que é que o novo Piratas das Caraíbas pode e deve trazer, neste momento, à carreira de Johnny Depp? A pergunta tem de ser feita. Deriva, em parte, da cruel porosidade entre a vida privada (na expressão das polémicas pessoais) e o cinema, que, em consequência, deturpa a essencial relação do espectador com um filme. Convém lembrar que Jack Sparrow foi a primeira personagem a colocar Depp na lista dos nomeados para um Óscar, em 2004, e é aquela que, apesar do esmorecimento da saga, permanece luminosa. Ou melhor, num luminoso cansaço. É assim que o ator de Eduardo Mãos de Tesoura se apresenta agora, na batalha pela recuperação do sucesso que vem a fugir-lhe por entre os dedos de lâmina nos últimos quatro anos, com os sucessivos desastres de bilheteira que foram O Mascarilha (2013), Transcendence: A Nova Inteligência (2014) e O Excêntrico Mortdecai (2015). Nem Black Mass - Jogo Sujo, filme de gangsters que o mostrou num outro registo de excentricidade, com fortes hipóteses de chamar as atenções da Academia, lhe recuperou o estatuto. Mais recentemente, teve o seu estimado papel de chapeleiro em Alice do Outro Lado do Espelho, mas não o protagonismo de outrora. Dito de um modo muito simples, o que dantes levava alguém a ver um filme com Johnny Depp no elenco era o próprio Johnny Depp. Um ADN que sugeria previamente o tom desse filme. Por estes dias, Piratas das Caraíbas: Homens Mortos Não Contam Histórias tenta recuperar, a medo (pelo menos, em termos de marketing), o valor que lhe é devido, mas as impurezas mediáticas não vão facilitar o processo. Com uma garrafa de rum na mão e outra no peito, que contém a miniatura do navio Pérola Negra, Sparrow/Depp tem aqui a oportunidade de reencontrar algumas moedas do tesouro que foi o seu percurso, e deve continuar a ser.

Crítica de cinema