Pouca sorte

Nuno Melo

Uma coligação feita de ódio é um acordo feito de nada. Mas só a aversão à direita vencedora une esquerdas, que à falta de dignidade na aceitação da derrota se mobilizam na usurpação do poder que o país quis entregue ao PSD e ao CDS.

António Costa vê na chefia do governo a única possibilidade de manter a liderança do PS. Por seu lado, PCP e BE encontram em António Costa a forma de imporem uma agenda radical que em condições normais nunca extravasaria a dimensão do protesto.

Quarenta anos de tradições consolidadas deixaram de fazer sentido, passando a ler-se anacronismos onde antes se encontravam consensos firmados pela necessidade de afirmar e estabilizar o regime democrático. Quebraram-se regras, calaram-se doutrinas e esqueceram-se programas. Nos tempos que correm vale tudo. E encena-se. Encena-se muito.

José Sócrates, amnésico, reapareceu em cena empenhado na legitimação da pretensão do PS. No governo, garante, faz sentido que seja empossado quem perdeu. Mas em 2011, debatendo com Jerónimo de Sousa dizia assim: "Há uma tradição na nossa vida política, quem ganha as eleições é quem vai para o governo".

Ferro Rodrigues foi eleito presidente da Assembleia da República. Pela primeira vez em anos, não foi escolhido um representante do partido que venceu as eleições legislativas. A votação dos deputados - invariavelmente expressiva para reconhecimento do titular do cargo acima da denominação partidária - foi a mais reduzida de sempre. E, no discurso, Ferro atacou, provocou e fracionou. Assegurou por antecipação saudades de quantos, socialistas também, antecederam na função.

Restavam os compromissos europeus - pensava-se - que o PS garantia que seriam para manter. Marcariam uma linha vermelha que as negociações em curso não violariam. E António Costa passeou-se pela Europa na promessa disso mesmo aos mercados e congéneres partidários.

Foram dias. Neste casamento de conveniência, o PS leva em dote mais votos do que os partidos que quer comprometer à sua esquerda. Acontece que quem manda verdadeiramente na relação são Jerónimo de Sousa e Catarina Martins .

Em Bruxelas. PCP e BE subscreveram propostas que apresentaram no Parlamento Europeu, reclamando o fim do Tratado Orçamental que o PS quis, da governação económica que o PS defendeu e do euro por que o PS lutou. Em Portugal, o secretário-geral do PCP reforçou não ter qualquer intenção de respeitar o Tratado Orçamental.

E o PS, em estado de necessidade, limita-se a fazer de conta.

Verdade seja dita, daria no mesmo. É que nenhum compromisso com o Tratado Orçamental seria compatível com o entendimento desejado por PCP e BE.

Repor cortes de salários, descongelar pensões, reduzir o IVA da restauração, não aumentar impostos e respeitar metas europeias, do défice a começar, é simplesmente impossível. E o PS tem disso noção. O cenário macroeconómico apresentado em campanha, vai sofrendo alterações que honram PEC do passado. E à cautela reconhece-se que "se houver um problema, terá de se ajustar a meta do défice".

À troika ditada pelas circunstâncias dos mercados seguir-se-á, talvez, a troika à esquerda imposta pela ambição de um só homem.

Depois de quatro anos a superar dificuldades, Portugal merecia melhor sorte. Mas as coisas são como são.

Eurodeputado do CDS