Os livros de areia

Nuno Artur Silva

As minhas praias são praias do sul. E estão ancoradas à juventude. Chegado o verão, íamos em grupo, como no poema de Ruy Belo: "Éramos jovens gostávamos acima de tudo de coisas simples (...) algumas coisas começavam em nós talvez o dia / talvez a vida talvez desajeitados gestos de paz/ Tínhamos ouvido vagamente falar da noite / onde um dia diziam se dissolveriam as linhas limites dos nossos vultos."

Não tenho a nostalgia dos amores adolescentes como tenho das amizades. Tempo de férias, disponibilidade total, jogos e mergulhos. E os livros, e as conversas à volta dos livros.

As amizades e os livros para a vida fizeram-se nessas praias onde passávamos os verões, que agora na memória se vão dissipando como se fossem um único verão.

Antes, muito antes de sermos tristes. Muito antes de habitarmos versos irremediavelmente tardios, como aquele que nos diz "É triste no outono concluir / que era o verão a única estação."


Nesse tempo "Sabíamos muitíssimo pouco é muito difícil saber tão pouco /mas víamos às vezes nuvens sobre as cabeças de algumas pessoas / havia momentos em que nós próprios sentíamos o peso de certas palavras / mas éramos jovens acima de tudo éramos jovialmente jovens".
Partilhávamos os livros, destacávamos passagens, sublinhávamos frases.

- Vê esta: "Estou sentado à beira-mar / olhando o mar sem o ver." O Que Diz Molero, Dinis Machado. "Coração: bússola doida."

- Romances de aventuras: "A Ilha do Tesouro, ainda não leste? Tens de ler. Aliás, tens de ler o R.L. Stevenson todo. E o Corto Maltese?" - - A Balada do Mar Salgado. E histórias do deserto? O deserto é outro mar.

Do deserto, como do mar, só conheço as margens. Para lá do fio do horizonte, para mim, é só literatura.
"Na minha juventude antes de ter saído / da casa dos meus pais disposto a viajar / eu conhecia já o rebentar do mar / das páginas dos livros que já tinha lido."

Líamos tudo, livros bons e menos bons, pulp fiction de alfarrabista e as novidades da feira do livro desse ano.

- Contos da Sétima Esfera, Mário de Carvalho. É português. Lê um conto que se chama O Fim. E este, Jánika, O Livro da Noite e do Dia, Vitório Káli, é pseudónimo. Lê o capítulo "As Visitações".

A coleção Argonauta era obrigatória: Ray Bradbury, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Ursula K. Le Guin, Philip K. Dick...
- Cidadela, do Saint-Exupéry, um livro incompleto e enigmático. O Ruy Belo demorou dois anos a traduzi-lo.
- E o Boris Vian, nunca leste o Boris Vian? A Espuma dos Dias. E o Conrad? E o Cem Anos de Solidão? O Lezama Lima, Paradiso, só tenho uma edição brasileira. A Invenção de Morel, uma novela perfeita, do Bioy Casares, amigo do Borges.

Sabes onde descobri o Borges? Naquele livro O Despertar dos Mágicos, inclui O Aleph, transcrito integralmente. Coleção Enigmas de Todos os Tempos, capas pretas, edição Bertrand. Tem aqueles todos: História Desconhecida dos Homens, Tiahuanaco, A Fantástica Ilha da Páscoa... todas aquelas teorias dos deuses astronautas, se não verdadeiras, fascinantes...

Depois ficávamos deitados na praia à noite, a olhar as estrelas e a a imaginar se ainda seria no nosso tempo que "um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante"...

Os caminhos que levam à literatura são insondáveis. Eu fiz grande parte do meu por essas praias, com o sal do mar no corpo, a cabeça deitada na toalha estendida na areia, o indistinto murmúrio coletivo dos outros com o som do mar ao fundo. O livro aberto, a areia a infiltrar-se por entre as páginas. O torpor que o calor trazia, alternando a leitura com a sonolência, confundindo a literatura com o sonho.
No conto que dá título ao livro, "O Livro de Areia", Jorge Luis Borges fala desse volume de incalculáveis folhas: "Não pode ser, mas é. O número de páginas deste livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma a última."

Ao abrirmos uma página, sabemos que quando a fecharmos será a última vez que a vemos, porque há infinitas páginas por abrir.
Muitas vezes abri para reler os livros da adolescência, mas ainda que as páginas pudessem ser as mesmas, as leituras que eu fizera já não estavam lá, como se a areia das praias se tivesse infiltrado e transformado todos esses livros em livros de areia, esquecidos na praia.
Nunca há regresso aos livros onde fomos felizes com a alegria da primeira vez. Não há releitura sem melancolia.
Muitos anos passaram e agora estamos noutro tempo de perguntas: "Where are we now / where are we now?" sabendo que "The moment you know / You know, you know".

A nossa vida nunca é só o que vivemos. Ela é sobretudo a diferença entre o que para ela sonhámos e o que dos nossos sonhos cumprimos.


O que havia nessas leituras da areia e nessas conversas de praia que partiam pela noite fora não era a vida, mas as suas possibilidades.
"E tudo se passava numa outra vida / e havia para as coisas sempre uma saída / Quando foi isso? Eu próprio não sei dizer / Só sei que tinha o poder de uma criança / entre as coisas e mim havia vizinhança / e tudo era possível era só querer."

As citações não identificadas acima são dos poemas de Ruy Belo "Esse Dia no Miradouro da Boca do Inferno", "A Mão no Arado" e "Tudo Era Possível". E das canções "Um Índio", de Caetano Veloso, e "Where Are We Now", de David Bowie.