O luar sobrepôs-se à cidade das estrelas

Inês N. Lourenço

La La Land não foi o ponto final da noite, mas sim a vírgula para um desfecho inesperado e feliz. Uma troca de envelopes, depois justificada por Warren Beatty, que entregou a estatueta, esteve na origem do impasse que antecedeu a legítima vitória: Moonlight. E que bom que foi, no segundo ano consecutivo, percebermos que afinal o guião não estava fechado. Damien Chazelle teve o reconhecimento como realizador - o mais jovem a ganhar nesta categoria -, mas parece que a sua recriação do musical não cegou o intelecto e os sentidos perante outro filme de grande envergadura humana. Este é um triunfo merecido para Moonlight, numa celebração do cinema feita de pluralidade, estendida a todas as categorias.

Na cerimónia em que o ilustre apresentador, Jimmy Kimmel, começou por dizer que o país está dividido, o facto mais notório é que esta foi a mais calorosa entrega de Óscares dos últimos anos, uma verdadeira homenagem aos afetos, assinalada contra o ódio emanado da atual presidência dos Estados Unidos. Não se ouviu muitas as vezes o nome de Trump, porque a subtileza se revelou a mais acutilante das armas. De Mark Rylance ao mexicano Gael Garcia Bernal, passando pelo discurso que foi lido de Asghar Farhadi, ou a mensagem de Sting, esta foi uma noite de um requintado ativismo político.

Com o humor esmerado de Kimmel, por vezes na crista do improviso, o tom memorialista que pontuou a festa, e ainda o fortíssimo elogio à diversidade cultural, eis um ano em que se sente que Hollywood trabalhou bem a música dos Óscares... e se tivesse premiado Isabelle Huppert, ainda melhor soava toda a canção.