Demite ou não demite

António Costa Pinto

Há dois temas interessantes, e um terceiro banal, nesta polémica sobre a verdade e a mentira na questão da declaração de rendimentos dos ex-administradores da CGD. O primeiro é a sequência de erros político-administrativos na decisão e o segundo, sobre as relações entre o Presidente e o governo. O terceiro é o normal ativismo da oposição na tentativa de forçar a demissão do ministro das Finanças. A verdade, como sempre, pouco importante, deve ter estado na prioridade à questão dos elevados salários dos membros do conselho de administração e no esquecimento da legislação (antiga) que obrigava à apresentação da declaração de rendimentos. Depois temos a sequência que se sabe. Nem o governo nem a Presidência reparam inicialmente no problema? A seguir veio a reparação atamancada. No meio há dois factos políticos maiores, sobretudo considerando a natureza política deste governo. O banco público teve provavelmente a administração mais autónoma do poder político da história recente (o que acontece com a atual também) e, por outro lado, os salários negociados estiveram a um nível de grande ironia. A oposição de direita a exigir a vencimentos de gestor público também foi de alguma candura. Chegamos então à polarização em torno do tema dos sms. Aqui a visita a Belém do ministro, seguida da conferência de imprensa e do comunicado da Presidência, é uma novidade. Não é todos os dias que um Presidente diz preto no branco que não provocou a queda de um ministro por superior interesse nacional. Aliás, foram poucas as interferências dos Presidentes neste campo e, alvo de comunicação pública, que me lembre dos meus próprios dos estudos sobre o tema, nenhuma. Entre a saliência mediática e a polarização dos partidos de oposição, não há resultados positivos da economia, do défice, do desemprego, etc., que se aguente para o Governo nas últimas semanas. A doutora Manuel Ferreira Leite até pode dizer que os sms não têm importância nenhuma para os portugueses, mas isso, sendo verdade, só ilustra a sua eventual falta de vocação política. Para o melhor e para o pior, a democracia também é isso.