Cannes, Estoril, Cannes

Rui Pedro Tendinha

Estive com David Lynch três vezes em circunstâncias mais ou menos surreais. Com Lynch, a palavra surreal é uma adenda redundante. A primeira vez foi numa entrevista em 2001 no Hotel Carlton de Cannes, durante o festival, por alturas do lançamento de Mulholland Drive. Uma conversa fascinante toda ela em moldes de enigmas e advinhas. O cinema não se explica, não se cansava ele de dizer. O mistério é feito por nós. E Lynch, sempre com um sorriso gentil, divertia-se com a perplexidade de alguma imprensa do festival (mal imaginavam certos críticos que, uns anos depois, o seu cinema iria desembocar no experimentalismo radical de Inland Empire). Impossível não reparar na forma como o génio se expressava, jogando muito com as mãos, com os dedos... Há 11 anos, o segundo encontro, quando fui convidado para moderar com Paulo Branco uma conversa em forma de masterclass no primeiro Estoril Film Festival (agora Lisbon & Sintra Film Festival), no Centro de Congressos do Estoril. Uma palestra onde se percebia o culto imenso dos portugueses pelo criador de Twin Peaks. A sala estava a abarrotar e a química com o público era total. Lembro-me perfeitamente que nessa altura estava apenas interessado em falar e promover os prazeres da meditação transcendental. Lynch apostou na conversa mística, mas esteve sempre divertido e a pedir cafés. A sua presença em Portugal não chegou às 24 horas e durante todo esse tempo nunca comeu, apenas quis fumar e recorrer à cafeína, tendo ainda tempo para uma cerimónia musical com meditação num ermo no Estoril. Por fim, neste domingo, no jantar do encerramento do Festival de Cannes voltei a cruzar-me com ele. Voltei a perceber que tem uma aura. E o seu mistério traz simpatia, não sendo por acaso que depois de Will Smith era a celebridade mais solicitada para selfies. Lynch também sabe ser pop star.