A sombra do caçador

Inês N. Lourenço

Não é todos os dias que o cinema de traço social nos remete para os clássicos. E, no entanto, esse cinema não foi inventado ontem. A obra de D. W. Griffith (1875-1948) - o mestre que atribuiu à Sétima Arte uma linguagem narrativa, por influência da literatura de Charles Dickens - está repleta de consciência e retrato social. E o que dizer de Chaplin? Não há aqui espaço para a quantidade de exemplos. De facto, as mágoas humanas, dentro e fora do ambiente doméstico, sempre foram retratadas no grande ecrã. Leva-nos a esse discernimento o filme Custódia Partilhada, de Xavier Legrand. Não tanto no sentido amplo que acabei de expor, mas na memória muito específica de A Sombra do Caçador (1955), de Charles Laughton, esse magnífico clássico. Sem que haja uma evidente afinidade narrativa entre as duas longas-metragens, há contudo uma ideia que as liga como fotografia e negativo: Denis Menochet, o pai que no filme de Legrand procura obsessivamente retomar o lugar do chefe de família, perseguindo a mulher, é a cara chapada de Robert Mitchum, que no filme de Laughton persegue duas crianças como o papão de um conto infantil. Onde Legrand carrega no realismo, Laughton trabalhou de forma exímia cenários, luzes, sombras e música. E mesmo nesta dicotomia visual e atmosférica há uma irresistível possibilidade de comparação. Laughton impulsiona-nos para o drama daquelas corajosas e doces criaturas, que a velha Lillian Gish protegerá de caçadeira na mão. Também Legrand, centrado na turbulência dramática da criança do seu Custódia Partilhada, oferece um olhar que a protege, que a vigia de noite. A sombra deste pai caçador está sempre presente, mas tal como se canta no filme de Laughton - Hush, Little One, Hush... - o realizador só quer garantir uma noite descansada à(s) alma(s) mais pura(s).