Amar até à morte

Alfred Hitchcock ganhou fama de sátiro, torturador implacável, sobretudo na forma como lidava com as actrizes, quase todas atiradas para o papel (predominante) de "louras gélidas", carregadas de amarguras e contratempos. Algumas das suas "vítimas" não deixaram de contar os tormentos a que foram submetidas - aconteceu com Tippi Hedren, com Anne Baxter, com Eva Marie Saint e, claro, com Kim Novak -, sempre em nome do desempenho artístico e de um qualquer combate pela qualidade dos filmes. Sem querer assumir papel de sentenciador numa matéria em que aquilo que se sabe soa sempre "deficitário" em relação ao "plano geral", quase apetece dizer que as damas não sofreram em vão. O caso de Kim Novak é, de resto, exemplar: depois de passar pelas mãos de Hitchcock, precisamente no filme que adapta este livro da dupla francesa Boileau-Narcejac (ou, com o devido respeito por quem tanto contribuiu para um estilo de policiais e thrillers, Pierre Louis Boileau e Thomas Narcejac, ambos nascidos na primeira década do século XX), nunca mais conseguiu regressar ao nível que atingiu em Vertigo, apesar de alguns bons momentos, como Beija-me, Idiota! ou Notável Senhoria. Faltava sempre qualquer coisa, fosse o mistério, a sedução, a duplicidade ou a aflição - e era aí que Sir Alfred acrescentava sempre uns pós da sua mestria...

Fosse ele próprio a estar atento a possíveis bons argumentos ou tivesse uma equipa atenta e dedicada no fornecimento de matéria-prima, o certo é que esta história não tardou a entrar na lista de prioridades. O livro (com o título original D"entre Les Morts, depois rebaptizado como Sueurs Froids) foi publicado em 1954 e o filme estreou em 1958 o que, bem feitas as contas, fica bem abaixo da média de anos que costuma separar um "suporte" e outro. Na adaptação, voámos de Paris, em plena guerra, para uma soalheira São Francisco. No célebre momento da alegada tentativa de suicídio da protagonista, trocámos o rio Sena pela baía daquela cidade californiana. Dos nomes originais, houve um em que nem Hitchcock se atreveu a mexer: Madeleine Gevigne passa a ser Madeleine Elster, talvez por se justificar a referência a uma pecadora bíblica chamada Maria Madalena... O realizador foi menos subtil do que os autores - se o nome verdadeiro (da mulher que engana o atordoado e obcecado "herói") é, no filme, Judy Barton, no livro, Renée Sourange. Ora "re-née" significa "renascida", algo que tem estreita ligação com o desenrolar dos acontecimentos.

O filme, hoje repetidamente eleito como o melhor de sempre, em todas as latitudes e longitudes, falhou à época da estreia. O livro, não. Foi porventura o maior êxito da dupla Boileau-Narcejac, que conquistou outras adaptações ao cinema e que haveria ainda de ganhar os direitos e prosseguir a escrita das aventuras de Arsène Lupin, originalmente criado por Maurice Leblanc (e estranhamente próximo do protagonista de Ladrão de Casaca... de Hitchcock). A narrativa tem um ritmo obsessivo, passando do tédio inicial de um antigo polícia para a obsessão que sente por uma mulher que, aparentemente, morre diante dos seus olhos. Temos direito a uma viagem - também no tempo - até Paris. E a uma superior história que, sem rodriguinhos mas cheia de pormenores deliciosos, nos mostra como se pode amar até à morte... e depois dela. Vale a pena a visita, até para desfazer mitos sobre a capacidade dos francófonos perante o suspense e o mistério. Mais difícil é tentar seguir as pisadas da figura central do enredo sem imediatamente nos lembrarmos de Kim Novak. O cinema marca - e muito.

Vertigo - A Mulher Que Viveu Duas Vezes
Boileau-Narcejac
Trad.: Miguel
Freitas da Costa
Ed. Asa
176 páginas
PVP: 13,50 euros

Reservado o direito de admissão a livros que não ultrapassem as 200 páginas

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