A vitória de Joseph Kabila

Uma coisa é certa: quer a comunidade internacional, quer o povo congolês queriam Joseph Kabila fora do poder na República Democrática do Congo. Ainda assim, ele esticou por dois anos mais o seu mandato constitucional. Mas já não dava mais, sobretudo depois da alteração da posição de Luanda, que ficou bem expressa no que disse João Lourenço, o Presidente angolano, nas visitas que a meio do ano passado efectuou à Bélgica e à França. Kabila teria de cumprir os acordos de S. Silvestre e realizar as eleições em Dezembro de 2018.

Angola, diga-se, é a potência militar mais próxima de Kinshasa e já mostrou por mais de uma vez a sua capacidade de intervir e alterar o poder nos seus vizinhos. E fê-lo justamente nos dois Congos.

O que não se esperaria em alguns gabinetes, certamente, era que o poder mudasse de mãos e de campo político, que um opositor vencesse as eleições presidenciais, apesar da hora tardia a que foi apresentado e também da pouca empatia do candidato de Kabila, Emmanuel Ramazani Shadary, ministro do Interior que se ficou nos 23,84% dos votos contados. A repressão policial dos últimos anos deve ter pesado na escolha. Até aqui, nada de anormal, nada de inesperado.

Acontece que Shadary, que ficou em terceiro lugar, e Martin Fayulu, que ficou em segundo, apressaram-se a contestar o resultado eleitoral. Fayulu falou mesmo de "golpe eleitoral" e disse que o povo não permitiria que lhe fosse confiscada a vitória. Ele que dissera, dois dias antes do início da apresentação dos resultados pela Comissão Eleitoral Nacional Independente, que o resultado eleitoral (a sua vitória) era inegociável. Também aqui nada de anormal em África, onde eleição sem contestação dos resultados é coisa muito rara.

Acontece que na última semana começou a levantar-se suspeitas de um verdadeiro golpe de teatro. Começando pelo fim, a França, sempre muito interessada e promotora da democracia, disse imediatamente, pela voz do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Yves Le Drian, que os resultados anunciados não eram os verdadeiros. É sabido que a escolha de Paris recaia em Matin Fayulu. Felix Tshisekedi, o vencedor, é mais um homem de Bruxelas, o "concorrente" Francês pela influência e controlo do país enorme e muito rico. Aliás, Étienne Tshisekedi, pai de Felix, morreu na Bélgica no ano passado e está em Bruxelas, numa morgue aguardando pela transladação para a RDC. Ele que foi grande opositor quer de Mobutu, o antigo ditador, quer de Kabila pai.

Fayulu acusou na semana passada Tshisekedi de estar a conspirar com Joseph Kabila para o afastar "da vitória eleitoral". No dia anterior à apresentação dos resultados, Tshisekedi disse que caso vencesse Kabila poderia viver livremente na RDC, sem qualquer tipo de perseguição, e quando os resultados foram apresentados disse não via em Kabila um inimigo, mas sim "um parceiro na alternância democrática".

Por seu lado, a Conferência Episcopal congolesa, que no fim-se-semana passado dissera que tinha feito uma contagem paralela dos votos e que o candidato de Kabila Shadary não era o vencedor, deixando no ar a ideia de que o novo Presidente seria Martin Fayulu, vem agora dizer que isto é assunto de políticos e que não lhe cabe contestar as eleições.

Ou Joseph Kabila, ao lançar a candidatura de Shadary sabia o que fazia para cumprir o seu "até já" aos congoleses, havendo já um acordo com Tshisekedi, ou o atraso na divulgação dos resultados permitiu-lhe manobrar e chegar a acordo com o vencedor, ou com quem lhe desse mais garantias e que seria, então, o "vencedor".

Qualquer leitura que se faça do processo eleitoral na RDC deverá chegar à conclusão de que depois de tudo, Kabila é o grande vencedor, e se Tshisekedi cumprir a sua palavra, daqui a cinco ou dez anos Kinhasa poderá ter de volta p "democrata" Joseph Kabila, que organizou pela primeira vez no país eleições que permitiram a alternância do no poder. Mas Martin Fayulu ainda tem uma palavra a dizer, nas ruas, porque o exército é de Kabila.

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