A surpresa dos comuns

Há entre os núcleos de leitores dos nossos dias uma série de perturbadoras tendências para o mergulho quantitativo - os que entendem só valer a pena abordar um livro se a respetiva lombada for possante, ampla, quase esmagadora. Como se a profundidade e o interesse fosse diretamente proporcional ao número de páginas ou de capítulos. E os que empurram a literatura para o domínio de uma qualquer fast food cultural: quanto mais curtos, melhor, para não esticarem "demasiado" a função de acompanhantes, para permitirem mais rapidamente o saltitar de um "sabor" para outro. Ensina-nos o tempo que nenhuma destas regras é incontestável ou, sequer, recomendável e que aquilo que nos fica de uma obra pouco tem que ver com o respetivo tamanho. Posto isto, fica claro que, ao referir neste livro de histórias uma dimensão "económica", de sistemática poupança, em certos momentos de uma evidente "avareza" da autora, a ideia fica adstrita ao resultado de quase todas as 19 narrativas que aqui encontramos, nunca à dimensão particular de cada uma ou do conjunto.

Tenho como boa a noção de que os bons contos, sendo intrinsecamente satisfatórios e conduzindo à probabilidade de deles nos recordarmos (muito) depois de terminada a leitura, nos deixam água na boca. Porque há personagens tão fortes, até nas suas fraquezas, que gostaríamos de continuar a acompanhar. Porque há enredos tão inteligentes, mesmo nas suas fantasias, que é uma pena vê-los acabados tão depressa. Porque há imagens que mereceriam ampliação e pormenorização. Em todas estas frentes, Cristina Norton - nascida na Argentina e há muitos anos radicada em Portugal - joga com uma notável sageza, com uma assinalável sensibilidade, com um superior sentido das proporções e dos limites: não há um só caso, entre os referidos 19, que não pudesse prolongar-se por mais linhas e parágrafos. Mas, se tal acontecesse, poderíamos ser transportados do louvável estado de saciedade para a perigosa condição dos empanturrados. E assim chegamos à conclusão de que as doses são rigorosas e justas, como convém a estes trabalhos curtos, de observação focada e de apresentação insuscetível de diletantismos.

A autora trabalha, entre uma ou outra ocasião mais distante da realidade (como o conto inicial, Carta A Matilde, em que um homem "pede emprestada" a voz a um grande cantor), no domínio das vidas comuns. Que, na aparência, acumulam banalidade e opacidade, mas que acabam por se revelar temperadas por elementos extraordinários, da perversidade à desforra, da necessidade de estilhaçar rotinas ao desejo de experimentar a aventura. Ou, quando calha, a um fantástico misto de todos estes elementos, subversivos da lógica da vida amorosa ou familiar. Quase todos os contos que nos oferece - exceção possível para A Perna Direita de Frida Kahlo - acarreta um sentimento de inquietação, uma necessidade de olhar à volta para tentarmos avaliar se "aquilo" não poderia, num sentido amplo, estar a acontecer perto de nós ou mesmo debaixo dos nossos desatentos narizes, tantas vezes ocupados com a procura de perfumes exóticos que lhes escapam os simples cheiros do sangue e das lágrimas.

A escrita acompanha a ilusória linearidade das histórias que, salvo melhor opinião, ganharão em ser provadas a espaços, deixando-as ganhar os paladares que carregam e que podem não ser evidentes à primeira. Volto atrás para concluir: quando chegamos à última frase, "eu não te disse que a tua mãe tinha jurado vingar-se?", ficamos a querer mais. Não por ser pouco, mas por ser tão bom.

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