A mosca da cereja que veio do Japão para o Fundão

Com Dum Dum não escapa um. Mata moscas, melgas e mosquitos. Recordo-me da embalagem do spray e do cheiro intenso que iria gasear o mosquedo da quinta dos meus avós.

Era presença indispensável no cabaz de compras da minha avó Piedade quando se ia aviar à loja do Ti Chico Ferrador, na estação dos comboios de Castelo Novo, aos pés de granito da serra da Gardunha.

No cabaz vinham ainda a cera búfalo, o tulicreme e o pão da "arraia". Era o princípio do verão, o junho do nosso contentamento. As tardes ficavam longas e quentes e as moscas começavam a sua lenta invasão, zumbindo em sonolência molengona a perturbar a sesta. A minha avó gaseava-as com "remédio para as moscas". O meu avô Manel preferia um método mais sustentável. Enrolava o Jornal do Fundão como se fosse um taco de basebol e pumba, sem dó nem piedade, acrescentava vírgulas e pontos finais esborrachando-as na capa do JF . Isto no tempo em que os jornais tinham outra utilidade, ou pelo menos alguma. Depois vieram outros métodos drosomicidas, como os sacos de água pendurados à porta ou os esturricantes aparelhos de néon, mas nunca nada foi tão eficiente como o Jornal do Fundão nas mãos do meu avô.

Era junho e o ar cheirava a cerejas, que pintavam as árvores cor de rubi e se depenicavam em malgas com água fresca. Não haverá nunca sabor como o dessas cerejas, as dos meus avós. Eram pequenas mas carnudas, com lábios de beijos ternos. Também gostávamos de cuspir os caroços para o quintal para ver se mais nasciam. Quantas mais se cuspiam, mais nasciam. O princípio dos verões na quinta dos meus avós era o tempo das cerejas e das moscas.

Agora as moscas são uma das grandes ameaças ao ouro vermelho do Fundão. A insaciável mosca tem nome de moto japonesa, chama-se Drosophila suzukii e, reza a lenda, veio a esvoaçar do Japão, onde a cereja é fruto sagrado de samurai, de vida breve mas intensa.

No Japão, as cerejeiras chamam-se sakuras. Existem mais de 600 tipos de sakura, com flores rosa, branca e amarela. As cerejas japonesas chamam-se sakuranbo e são também um símbolo de amor erótico. Há uma sakura com mais de dois mil anos chamada jindai zakura. Tem mais de dez metros de altura e reza a lenda que foi plantada pelo imperador Takeru.

Do Japão, voam charters de turistas para o Fundão para ver as cerejeiras em flor e o nosso "hanami beirão" (cerejeiras em flor). E se os turistas são que nem moscas, parece que as moscas do Japão aterraram no Fundão.
A voraz suzukii, também conhecida como mosca-da-asa-manchada ou mosca-do-vinagre, é uma praga que perturba a produção de cereja na Cova da Beira. A glutona nipónica perfura o fruto aurífico, colocando lá os seus ovinhos que geram larvas e se alimentam do fruto da nossa seleção, até ele tombar podre e inútil. Há vários meios de combater o mosquedo, mas nenhum seria tão eficaz como o Jornal do Fundão nas mãos do meu avô ou a metralhadora Dum Dum nas mãos da minha avó.


Felizmente que há cerejas que cheguem para todos, até para as moscas. Neste ano a produção de cereja do Fundão deve atingir as sete mil toneladas. As conversas são como as cerejas, há as boas e as más. Por isso escolha-as com atenção que elas não duram para sempre, nem as cerejas nem as conversas.

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