À imagem do artista

É ponto assente que não existirá nunca um Van Gogh como aquele que Kirk Douglas interpretou em Lust for Life (1956), de Vincente Minnelli. O rosto justíssimo da angústia veemente de um jovem artista, carregando o mistério humano de uma das mais fascinantes figuras da história da arte. Foi o próprio Douglas quem escreveu, na autobiografia The Ragman"s Son, que esteve quase a deixar-se perder nessa personagem e que jamais poderia voltar a interpretá-la. Uma verdadeira experiência de abismo que vamos reencontrar, noutros moldes, em A Paixão de Van Gogh, dos realizadores Dorota Kobiela e Hugh Welchman, um filme integralmente pintado à mão, frame by frame... Há neste gesto uma loucura que nos aproxima naturalmente do universo obsessivo do pintor holandês, como se fosse uma leitura literal do esforço que o absorveu durante a sua curta vida, em constante perseguição de matérias visuais. Em 1948, Alain Resnais já havia realizado uma curta-metragem documental, Van Gogh (vencedora do Óscar), que explorava essa linguagem narrativa e biográfica dos seus quadros, com a sobreposição de uma voz off. O que hoje chega às nossas salas é um projeto aumentado segundo esta génese, com pintura animada a partir do traço característico de Vincent van Gogh, e posta à disposição do que poderemos identificar como um conto noir. Chegamos à textura da sua vida cinzenta através das cores garridas que aplicava na pintura, e da revisitação do momento do seu suicídio. Tudo num minucioso trabalho plástico, que agarra o espectador pela força do espanto e mesmo por uma ditosa estranheza quanto à inovação... Já que ninguém senão Kirk Douglas pode ser o absoluto Van Gogh, ao menos que expressões singulares como esta celebrem dignamente a arte e a humanidade do artista. Ainda mais se for assim, à sua imagem.

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Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

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João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

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Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.