À imagem do artista

É ponto assente que não existirá nunca um Van Gogh como aquele que Kirk Douglas interpretou em Lust for Life (1956), de Vincente Minnelli. O rosto justíssimo da angústia veemente de um jovem artista, carregando o mistério humano de uma das mais fascinantes figuras da história da arte. Foi o próprio Douglas quem escreveu, na autobiografia The Ragman"s Son, que esteve quase a deixar-se perder nessa personagem e que jamais poderia voltar a interpretá-la. Uma verdadeira experiência de abismo que vamos reencontrar, noutros moldes, em A Paixão de Van Gogh, dos realizadores Dorota Kobiela e Hugh Welchman, um filme integralmente pintado à mão, frame by frame... Há neste gesto uma loucura que nos aproxima naturalmente do universo obsessivo do pintor holandês, como se fosse uma leitura literal do esforço que o absorveu durante a sua curta vida, em constante perseguição de matérias visuais. Em 1948, Alain Resnais já havia realizado uma curta-metragem documental, Van Gogh (vencedora do Óscar), que explorava essa linguagem narrativa e biográfica dos seus quadros, com a sobreposição de uma voz off. O que hoje chega às nossas salas é um projeto aumentado segundo esta génese, com pintura animada a partir do traço característico de Vincent van Gogh, e posta à disposição do que poderemos identificar como um conto noir. Chegamos à textura da sua vida cinzenta através das cores garridas que aplicava na pintura, e da revisitação do momento do seu suicídio. Tudo num minucioso trabalho plástico, que agarra o espectador pela força do espanto e mesmo por uma ditosa estranheza quanto à inovação... Já que ninguém senão Kirk Douglas pode ser o absoluto Van Gogh, ao menos que expressões singulares como esta celebrem dignamente a arte e a humanidade do artista. Ainda mais se for assim, à sua imagem.

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O novo equilíbrio no Congresso despertou em Trump reações acossadas, com a imprensa e a investigação ao conluio com o Kremlin como alvos prioritários. Na Europa, houve quem validasse a mesma prática. Do lado democrata, o oxigénio eleitoral obriga agora o partido a encontrar soluções à altura do desafio em 2020, evitando a demagogia da sua ala esquerda. Mais uma vez, na Europa, há quem esteja a seguir a receita com atenção.

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Tal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.