A história mais difícil

Por uma vez, tudo o que pensamos sobre o abuso sexual de menores poderá ser posto em causa, levando por diante a decisão de ler até ao fim esta primeira obra de uma jovem escritora (nascida em Catânia, na Sicília, há menos de 30 anos). Tal não acontece porque a autora vise desculpabilizar o comportamento dos adultos, Giorgio e Silvia, pai e mãe de Maria, perante a criança - se um se lança em jogos hediondos e repulsivos com uma inocente que, ao menos de início, parece procurar apenas proteção e carinho, a outra torna-se seguramente responsável pelo pecado de fechar os olhos e de ignorar todos os sintomas de que algo de anormal se passa entre o marido e a filha. A questão que Anna Giurickovic Dato levanta, numa trama entrecortada de momentos felizes e de ocasiões dramáticas, é muito mais perturbadora - porque, recusando maniqueísmos, mundos a "preto e branco", ela acaba por conferir a Maria, que vemos passar de menina a peculiar pré-adolescente, uma personalidade que nos confunde, nos agita e, sinceramente, nos assusta. Porque, terminada em desastre a primeira experiência com o pai, misteriosamente morto, ela aparece munida de uma capacidade sedutora, de um conhecimento de práticas de tentação, de uma intuição muito avançada para a sua idade, que desconcerta e "desregula" Antonio, o novo namorado da mãe.

A autora é também perversa, à sua maneira. Porque, em primeira instância, nos apresenta uma família que, à superfície, não parece disfuncional, que não passa necessidades, que não revela antecedentes suspeitos, que não se enquadra nos chamados "perfis de risco" que associamos de imediato à pedofilia. Os dois cenários distintos em que tudo vai sucedendo, Roma e Rabat, são desenhados de forma simpática e atraente para o leitor - até que os episódios de desvario e de aberração nos atropelam, literalmente. Há um lugar-comum de enorme utilidade: o propósito de nos recordar aquilo que tantas vezes preferimos esquecer e que se prende com a transversalidade destes acontecimentos repulsivos - neste tipo de violência (como noutros), não há classes nem fronteiras, mas sim perfis psicológicos que acabam por se revelar disseminados por todo o corpo social. A diferença mora, como já se disse, no progressivo esbatimento da inocência da vítima inicial, que deriva, porventura em função das circunstâncias, para um papel claramente agressor e perigoso para todos os que a rodeiam.

Daqui resulta um livro que é uma autêntica bofetada sem luva, um alerta angustiante que só por comodidade podemos remeter, sem uma reflexão aflita, para o puro domínio da ficção. Por uma vez, damos de caras com uma narrativa, carregada de viagens no tempo e no espaço, capaz de dispensar uma linguagem mais carregada (outro truque ou, se preferirem, outro trunfo da escritora) para desenhar o horror, em que os secundários (por exemplo, a amorosa avó de Maria) se tornam cúmplices, em que, sobretudo e definitivamente, as figuras maiores vão repartindo culpas, sem lugar para inocentes. Outra fosse a circunstância de A Filha e, sem sobressaltos, poderíamos recorrer a uma frase que parece vir do fundo dos tempos: daqui ninguém sai vivo. Pelo que se deixa apenas um aviso aos incautos, aos que se deixem atrair pelo ar angelical da menina que enche a capa - aqui, tudo, mas mesmo tudo, é de uma violência que indispõe e que nos deixa a pensar muito tempo depois de concluída a leitura. Mas não é essa uma das funções da literatura? Este livro é o oposto da escrita light - até porque não há luz, nem ao fundo do túnel.

A Filha
Anna Giurickovic Dato
Dom Quixote
PVP: 12,51 euros

Reservado o direito de admissão a livros que não ultrapassem as 200 páginas.

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