A dedicação do senhor Simões

Afinal, existe mais vida felina para além do espaço cibernético. É isso que nos mostra o fascinante documentário Gatos, de Ceyda Torun (estará uma semana em sala, ficando depois disponível em DVD e VOD). Um filme que, por um lado, contrasta com a narrativa superficial que muitos têm do imaginário destes animais, e, por outro, reflete sobre o modo como tais criaturas ancestrais habitam uma paisagem citadina. Quem gosta de gatos, para lá das imagens fofinhas que circulam nas redes sociais, terá duas sensações ao ver o filme: o encanto pela sua especial relação com a cidade de Istambul, e a dificuldade de aceitar que não são bichanos que vivem no aconchego de um lar. No entanto, o que Ceyda nos prova com este terno olhar cultural é que, se o espaço e vida comunitária forem propícios a isso, os gatos são mais felizes no exercício da sua liberdade. Que é como quem diz, em constante vadiagem.Naturalmente, a beleza de tudo isto está no carácter específico da cidade e no modo espiritual como os istambulenses vivem a presença dos gatos. É possível transpor o retrato genuíno deste lugar para outras grandes cidades? O impulso é dizer que não, porque sabemos como estas não estão feitas para o bem--estar dos animais - nem estrutural nem humanamente falando. Posso, contudo, relatar o caso que tenho à minha porta, em Lisboa, e que me comove todos os dias: há um senhor na rua onde moro que faz da sua rotina um enorme gesto de bondade, distribuindo ração (sempre às mesmas horas e dias de chuva!) pelos gatos que ali se refugiam do movimento brusco da estrada. O senhor Simões conhece--os todos. Fala com eles como fala connosco, e segue arrastando a sua mala de rodinhas Lembrei-me dele enquanto via o filme. Sem saber, também eu vivo em Istambul, mesmo mantendo um prisioneiro de bigodes em casa.

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Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.