A dança da vida

Em 1948, a dupla The Archers, Michael Powell e Emeric Pressburger, realizou num prodigioso Technicolor Os Sapatos Vermelhos, filme sobre uma bailarina dividida entre a felicidade individual e a devoção à arte. Nele, a componente dramática enverga a fantasia, tal como a bailarina calça os sapatos vermelhos que a impedem de cessar a dança... Evocamo-lo a propósito da estreia de Polina, também um filme em que a vida e a arte se encontram, mas numa dimensão menos fatal, menos devedora à magia (que tão preciosa é na obra de Powell/Pressburger) e mais natural. Dito de outro modo, um filme em que o drama pessoal e a entrega à expressão artística se conjugam para responder às recorrentes questões lançadas em ambos os filmes (e também, recentemente, na animação Bailarina): "Porque queres dançar?" ou "O que é para ti a dança?". A resposta tem sempre que ver com uma forma de espontaneidade ou, se quisermos, de autenticidade. Como diz Polina, "é uma coisa que acontece". Ora aqui reside o paradoxo de um filme que não se deixa acontecer muito, porque trabalha na própria protagonista uma sensata e proveitosa contenção. Realizado pelo coreógrafo Angelin Preljocaj e por Valérie Müller, Polina revela a alma nos movimentos que, libertos da disciplina do ballet (a formação clássica da personagem principal), se transfiguram pelo fôlego da vida ela mesma - daí a justeza do título original, Polina, danser sa vie. Esta história de uma coreografia biográfica chega-nos assim como um conjunto de gestos e decisões compassados numa narrativa, que procura o seu final feliz à luz da dança contemporânea. Um final que encontra uma energia próxima daquele outro de Os Sapatos Vermelhos, salvando a protagonista da tragédia, dessa metáfora dos sapatos, para dar lugar à libertação pela poesia do bailado de pé descalço.

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Daniel Deusdado

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