A amnésia de Modric

Não retirando qualquer mérito aos vários agentes e instituições desportivas responsáveis pelo espectáculo do Campeonato do Mundo (jogadores, treinadores, organização, adeptos, etc.) há um factor insuficientemente apreciado que muito tem contribuído para algumas das mais memoráveis erupções de qualidade dentro das quatro linhas. Refiro-me, como é óbvio, ao sentido de oportunidade dos aparelhos judiciais europeus.

Recorde-se que foi a acção decisiva da Procuradoria espanhola, ao anunciar uma multa milionária e dois anos de pena suspensa para Cristiano Ronaldo, a facilitar o até agora único hat-trick do Mundial. Foi portanto com natural entusiasmo e trepidação que os connoisseurs de excelência centrocampista acolheram as notícias de que Luka Modric foi indiciado por prestar falsos testemunhos perante um tribunal croata, arriscando cinco anos de prisão.

Zidane teve a mãe de todas as exibições dominantes contra o Brasil, nos quartos-de-final do Mundial 2006

O caso em si já era suficientemente rocambolesco, envolvendo acusações de corrupção a Zdravko Mamic, suposto homem forte do futebol croata nas últimas décadas, e um nome que qualquer busca na internet devolverá fatalmente atrelado aos adjectivos "polémico" e "controverso". (Numa sessão do julgamento, discutiu aos berros com os seus advogados e acabou por despedi-los em plena sala de tribunal, esclarecendo o juíz que passaria a representar-se a si próprio). Quanto ao testemunho de Modric, terá batido o recorde do Mundo de "não-me-lembros", até agora orgulhosamente detido por Zeinal Bava desde a brilhante exibição no derby com uma comissão parlamentar em 2015. Modric afirmou não se lembrar de datas em que assinara contratos, nem de datas em que recebera transferências bancárias de milhões de euros; a dada altura, afirmou não se lembrar do ano em que se estreou pela selecção principal croata. Será uma pena caso um dia também esqueça o seu jogo contra a Argentina, um risco que poucas pessoas que o tenham visto vão correr.

Há duas sub-categorias de "grandes exibições" em torneios desta natureza: as decisivas e as dominantes. As decisivas são aquilo que Ronaldo fez contra a Espanha: aparecer nos momentos-chave e definir o resultado final. As dominantes são mais raras: quando um jogador não se limita a deixar a sua marca no jogo, mas parece articulá-lo por inteiro, funcionando como narrador participante e omnisciente. O uruguaio Forlán teve dois jogos assim em 2010, Pirlo teve uns três ou quatro no Euro-2012, e Zidane teve a mãe de todas as exibições dominantes contra o Brasil, nos quartos-de-final do Mundial 2006, naquela que terá sido a apoteose desta sub-categoria.

Modric não atingiu esses picos contra a Argentina, mas esteve perto. Defrontar uma equipa fundamentalmente desorganizada trouxe à superfície uma das suas maiores virtudes: a lucidez instantânea, capaz de descodificar o borrão cognitivo de ângulos e posições não-familiares em que o jogo se desconchava numa situação de emergência - aqueles momentos de transição em que ambas as equipas perdem o controlo imediato sobre as coisas que acontecem.

Ao descrevemos um excerto prolongado de futebol como "bonito" estamos quase sempre a reconhecer um jogador, ou grupo de jogadores, que parece ter executado várias acções consecutivas de propósito, instrumentalizando o caos para acumular micro-vantagens. Quando um estilo de jogo como o de Modric opera a este nível, não serve apenas como entretenimento nem como emblema de eficácia: torna-se também didáctico, no sentido em que cada uma dos seus gestos parece explicar uma desordem, ao mesmo tempo que a revoga.

complicado nesta altura, está o mapa astral de Lionel Messi, que jogará a sua continuidade em prova contra a Nigéria

A chave do seu método não tem a ver com a memória (que não é grande coisa, como foi estabelecido em tribunal), mas com a faculdade oposta. Um exercício sempre divertido é contabilizar os momentos durante um jogo em que Modric se movimenta, quando não tem bola, numa determinada direcção enquanto olha por cima do ombro numa direcção diferente. Não o faz para verificar onde estão colegas e adversários nesse instante, mas sim para extrapolar onde vão estar três instantes depois. E o tempo dá-lhe quase sempre razão. É uma alquimia muito peculiar, a que consegue transformar a leitura de coreografias acidentais numa espécie de horóscopo secreto.

Mais complicado nesta altura, está o mapa astral de Lionel Messi, que jogará a sua continuidade em prova contra a Nigéria, na próxima terça-feira. É altura de a justiça argentina mostrar a criatividade que a equipa não tem tido e desenrascar uma acusação qualquer.

Por decisão pessoal, o autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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