23 de Messidor, CCXXVI

A França tornou-se a primeira equipa a garantir um lugar na final do Campeonato do Mundo, e tudo aconteceu ontem, a 23 de Messidor no ano CCXXVI - ou pelo menos seria essa a data, caso Napoleão Bonaparte (o N'Golo Kanté da sua geração) não tivesse interrompido a brincadeira e restaurado o calendário Gregoriano quando se proclamou Imperador.

"Messidor" (que soa a escárnio profético sobre um dos ícones futebolísticos deixados pelo caminho neste até agora triunfante percurso gaulês) tem raíz na palavra latina para "colheitas" e, tal como a restante terminologia exótica de Brumários, Frimários e Thermidors, foi cunhada por Fabre D'Églantine, actor e dramaturgo, nomeado pelo comité responsável por organizar o Calendário Republicano para atenuar as suas patologias decimais com alguma poesia. D'Églantine, uma intrigante figura histórica (o Roberto Martinez da sua geração), queria substituir as visões da ignorância sacerdotal pelas "Verdades da Natureza" e purgou o calendário de deuses e santos, preenchendo-o com elementos da economia rural: o 23 de Messidor, por exemplo, era dedicado ao feijão. Felizmente mandado para a guilhotina por Robespierre, após um caso de fraude envolvendo a Companhia das Índias, mas também, suspeita-se, por ser insuportável, D'Églantine escolheu despedir-se deste mundo distribuindo poemas da sua autoria pela multidão - o equivalente da altura a gravar um vídeo inspirador no YouTube.

A selecção belga não se despediu propriamente com poemas antes de ser enviada para essa desoladora guilhotina contemporânea conhecida como "jogo de atribuição dos terceiro e quarto lugares", mas fez o melhor que pode perante uma equipa ligeiramente melhor. A diferença foi mesmo muito ligeira - talvez até menor que a diferença de qualidade global que se notou no jogo anterior com o Brasil. Jogos que colocam frente a frente tamanhas colecções de talentos em estado de quase perfeito equilíbrio tendem a ser melhores quanto mais distantes das decisões derradeiras. Um França-Bélgica talvez tivesse sido melhor nos quartos ou oitavos de final; seria pior na final.

Ainda é difícil perceber exactamente o que é esta França, ou definir a sua óbvia superioridade sobre todas as equipas que já defrontou e sobre aquela que ainda vai defrontar. Se há ali uma identidade colectiva, parece fundada na disponibilidade geral de todos os elementos para abdicarem momentaneamente da sua identidade individual, caso isso seja necessário para o sucesso: temos visto Pogba a metamorfosear-se num estupendo médio de contenção, e Griezmann a acumular cortes em recuperação defensiva como se fosse qualquer outro jogador do Atlético de Madrid excepto Griezmann. Ontem até essa reserva estratégica de espontaneidade chamada Mbappé testou as sobrancelhas de alguns comentadores mais românticos, quando retardou abnegadamente uma reposição de bola da Bélgica e conseguiu desperdiçar dois minutos preciosos nos descontos, gesto que lhe valeu um cartão amarelo.

No meio destes sobressaltos identitários, a personalidade mais consistente tem sido Kanté, que torna supérflua e quase deselegante qualquer tentativa de avaliar a qualidade das suas exibições. Desde os primeiros minutos no jogo inaugural contra a Austrália, o principal índice da sua utilidade não tem sido o que faz, mas o que impede de ser feito: todos os calendários alternativos que invalidou pelo caminho.

Kanté possui aquela capacidade, que costumava manifestar-se em grandes defesas italianos em fim de carreira (Cannavaro mostrou-a em 2006; e Baresi na final de 1994) de jogar emancipado das circunstâncias específicas da partida, subalternizando ambas as organizações colectivas à infalibilidade dos seus caprichos. Na sua função nominal - a máquina de movimento perpétuo encarregue de perturbar ritmos, ocultar ângulos e interceptar boas ideias - executa uma lógica de supremacia negativa, e consegue fazer da imprevisibilidade um atributo defensivo: uma causa e consequência de solidez e não de criatividade.

Para os seus, funciona como um corrector táctico em tempo real, neutralizando qualquer ineficiência, desatenção ou erro posicional. Para os outros, é um instrumento de dissuasão ambulante. Nunca é fácil perceber, mesmo quando estão em causa pessoas insuspeitas como De Bruyne ou Hazard, que decisões ofensivas são determinadas por uma ideia, quais são produto de inércia ou cansaço, e quais são uma resposta improvisada a uma constrição, seja ela consciente ou inconsciente - mas ontem, a partir de certa altura, sentia-se que muita da manobra atacante belga consistia em procurar o espaço mais longe possível de Kanté. A sua mera presença obriga a constantes revisões: já abortou tantos planos promissores que o plano original é a última coisa na qual se confia. E o número de possibilidades viáveis é reduzido só porque ele existe.

Caso se adopte o precedente recente de atribuir o prémio de melhor jogador da competição ao talento atacante que mais brilhou, mesmo que não faça parte da equipa vencedora (Zidane em 2006 e Messi em 2014) ou nem sequer chegue à final (Forlán em 2010), Hazard e Modric serão os candidatos óbvios, e talvez os mais justos. Independentemente do que aconteça no próximo Domingo, 27 de Messidor, o galardão parece inadequado para reconhecer os méritos específicos de Kanté. Mais do que uma bota dourada, o que ele merece é um mês inteiro rebaptizado com o seu nome, em honra das Verdades da Natureza.

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