Geringonça de geometria variável nas redes e fora

O próximo governo será do PS e será, provavelmente, apelidado de Geringonça de Geometria Variável para o diferenciar da primeira Geringonça. Mas, poderíamos ter previsto esse resultado durante a campanha eleitoral? Simplesmente olhando para o que os portugueses estavam a fazer nas redes sociais e a pesquisar no Google? A resposta é um categórico sim.

As legislativas de 2019 foram, simultaneamente, as primeiras eleições para a Assembleia da República em que a desinformação, propaganda e fake news foram instrumento e preocupação para votantes e partidos e onde as redes sociais deixaram de ser novidade para serem parte do arsenal eleitoral.

Num breve resumo do que foi a campanha eleitoral nas redes sociais, tal como foi praticada pelos partidos e candidatos, podemos dizer que houve partidos para os quais as redes foram o local principal de campanha (PAN, Iniciativa Liberal e LIVRE) e outros para os quais a campanha nas redes foi apenas um dos muitos instrumentos disponíveis entre arruadas, almoços, debates e cartazes (PS, PSD, BE, CDU e CDS-PP).

Do ponto de vista dos candidatos, a cultura do Instagram de desvendar o véu da reserva, isto é, mostrar os bastidores da política e o lado humano dos políticos que os torna próximos do votante tanto contagiou o Bloco de Esquerda como o CDS-PP.

Assim, Mariana Mortágua surgiu fora do contexto das ações de campanha com uma foto em que riscas da luz do sol incidiam sobre a sua roupa junto com um comentário espirituoso de Marisa Matias em que dizia que as riscas ficavam bem à deputada.

Já Assunção Cristas mostrou-se sentada ao computador a preparar um discurso. Indo mais além no mesmo desvendar do intimo em espaços públicos esteve também Cristas com uma foto sua de há alguns anos no seu dia de aniversário, acompanhada de um comentário sobre o tempo em que ainda nem pensava na política.

Também, a candidata do PSD Margarida Balseiro se rendeu a dinâmica de celebridade-política com uma foto de bolo de aniversário e festejo em ação de campanha. De algum modo o espírito das celebridades de reality shows e novelas que, posteriormente, moldou o quotidiano dos portugueses mais jovens no Instagram chegou à campanha, particularmente, na comunicação de muitas candidatas criando um fenómeno de "celebridades-política" dando razão à velha máxima de que tudo é política.

Por outro lado, tivemos a campanha nas redes que descreve e mostra tudo o que passa e não passa nas televisões, criando dinâmicas de apoio nas redes. O Partido Socialista foi exímio nessa prática e deu lições a todos os outros partidos, quer no número de interações com votantes no Facebook, quer na forma como valorizou os seus dois candidatos com maior presença nas redes. Respetivamente, o Secretário Geral António Costa e Secretária Geral Adjunta Ana Catarina Mendes.

Ao longo de toda a campanha duas das cinco posições do ranking de políticos no Facebook foram ocupados pelo PS, sendo os restantes ocupados, na maioria dos dias por Catarina Martins do BE, Assunção Cristas do CDS e Margarida Balseiro do PSD ou André Silva do PAN. Surgindo Rui Rio apenas nos dois últimos dias de campanha entre os políticos mais virais do Facebook.

Comparando candidatos, Rui Rio foi mais coerente no estilo da comunicação do que António Costa. Ou seja, o candidato do PSD no discurso televisivo, nos debates e nas redes pareceu ser mais o próprio e não vários "Eus". Por sua vez, Costa comunicou de forma diferente entre os diferentes suportes, sendo mais espontâneo nos debates, mais formal nos comícios e muito descritivo e distante nos textos das redes.

De algum modo Rui Rio conseguiu ser o Donald Trump ou Boris Johnson da nossa campanha ao conseguir fazer um discurso populista na forma comunicativa sem o fazer no conteúdo. Pois, a procura constante de brincar e fazer piadas ou dar alfinetadas, desde o "meu Centeno" nos debates, até ao procurar tratar por tu o cidadão nos posts e tweets, passando pelo ataque à SIC e ao Expresso e às suas sondagens, no direto em que deu a entender que o PSD teria "perdido" as eleições sem ter uma "derrota, aproxima-o do modelo comunicativo dos dois líderes anglo-saxónicos.

Todos estes modos de comunicar e usar as redes criaram empatia e apoios mas também temos de falar do criar da distância entre candidatos e potenciais votantes. Pois, as redes também servem para tal através da desinformação, propaganda ou, se preferirmos, das famosas Fake News.

O trabalho realizado pelo DN e pelo MediaLab do ISCTE-IUL permitiu, ao longo da campanha, perceber como cidadãos, organizados ou não, procuravam fazer cada um de nós desistir de apoiar um candidato e aproximar-se da abstenção, ao considerar que todos os políticos são corruptos e iguais. Mais de um milhão de portugueses foram expostos durante a campanha a todo o tipo de mentiras, mas o ponto alto ocorreu precisamente no último dia de campanha.

A situação envolvendo um cidadão sénior e António Costa a propósito de uma notícia falsa sobre as, supostas, férias do Primeiro Ministro durante os fogos de Pedrogão fez com que as campanhas, de vontades individuais ou organizadas de fake news, saltassem para os écrans das televisões e para a análise da página online do DN. O que este episódio demonstra é o perigo das notícias falsas e porque importa monitorizar as redes e ter comunicação social que mostre o que se passa de verdade, desconstruindo o que é dito ser "verdade" mas que o não é.

Nas redes não é apenas o falso que é viral, há também posts com mensagens claras e não falsas que atingem a viralidade. Por exemplo, o Iniciativa Liberal e o PAN foram dos partidos que melhor souberam gerir essa viralidade. Nomeadamente, o PAN com posts sobre "se não votas não muda" e a frases na comunicação televisiva como a que declarava em noite de resultados que o parlamento se dividia agora entre os conservadores da CDU (com Verdes não progressistas) acompanhados pelos do CDS-PP e PSD e um outro bloco progressista contando com PS, BE, PAN e Livre.

Não sabemos onde o PAN colocaria o Iniciativa Liberal (IL), o outro partido de mensagens virais nas redes. No entanto, podemos de certeza dizer que o IL, ao estar sempre entre os cinco partidos mais presentes no ranking do Facebook, augurava a sua quase eleição no círculo de Lisboa. Por sua vez, a distribuição das pesquisas feitas no Google por "PAN" em quase todo o território nacional prognosticava a eleição de mais deputados fora de Lisboa.

Também a baixa interação do CDS-PP nas redes, quando comparada com CDU e BE, dava a entender que teria um resultado muito mais baixo do que aqueles dois outros partidos, tal como veio a ocorrer. Ainda no mesmo registo analítico, a subida astronómica nas redes do CHEGA nos últimos dias dava-nos uma indicação de que o "voto envergonhado" nesse partido poderia estar a sair do armário e que a eleição de um deputado era uma possibilidade credível.

Quanto ao LIVRE, aí foi mesmo um "Glitch". Ou seja, um resultado inesperado pois a sua candidata nunca esteve no topo do ranking do Facebook e o partido só surgiu em destaque no dia a seguir à sua entrevista televisiva com Ricardo Araújo Pereira na TVI.

O Facebook mostrava nos últimos dias uma aproximação das interacções do PSD na rede às do PS e com toda a movimentação ascendente nas redes do PAN, junto a uma relativa estabilidade da CDU e do BE e uma boa presença de Cristas, mas não do CDS-PP, nas redes. Todas essas tendências observáveis nas redes e nas pesquisas não nos podiam dizer quantos deputados cada partido ia eleger. No entanto, indicavam, sem sombra de dúvida, que a maioria no parlamento seria de esquerda.

Que haveria mais partidos e que o próximo governo seria uma Geringonça de geometria variável. Uma Geringonça, com papéis nuns casos, noutros com palavras dadas em privado ou em público e, por isso, de geometria variável. E até, talvez, quem sabe nalguns casos obtendo a abstenção de um ou outro partido ou deputado. Nestas eleições, dentro e fora das redes, ganhou a geometria variável da viralidade.

*Professor Catedrático de Ciências da Comunicação do ISCTE-IUL

Exclusivos

Premium

Espanha

Bolas de aço, berlindes, fisgas e ácido. Jovens lançaram o caos na Catalunha

Eram jovens, alguns quase adultos, outros mais adolescentes, deixaram a Catalunha em estado de sítio. Segundo a polícia, atuaram organizadamente e estavam bem treinados. José Manuel Anes, especialista português em segurança e criminalidade, acredita que pertenciam aos grupos anarquistas que têm como causa "a destruição e o caos" e não a luta independentista.