Falava-se de mais, fazia-se de menos

Em declaração exclusiva que me fez para o DN, nos anos 80, o saudoso Mota Pinto, um dos principais artífices do Bloco Central, salientou que fala-se de mais e faz-se de menos nos órgãos de soberania. O fim dos debates quinzenais, que tanta celeuma causou, poderá ser visto à luz desta afirmação de Carlos Alberto da Mota Pinto, o terceiro e último líder genuinamente social-democrata do PSD. Os dois primeiros foram, como é sabido, Francisco de Sá Carneiro e Francisco Pinto Balsemão.

Numa altura em que se prefigura novo Bloco Central na sociedade portuguesa - em muitos casos, como neste dos debates quinzenais, é até já uma realidade bem viva e actuante -, as palavras de Mota Pinto ganham extrema acuidade e encerram em si mesmas uma enorme veracidade. Os políticos dividem-se em fazedores e palradores. Quanto mais houver do primeiro grupo, melhor será para o país. Não é só Rui Rio, o pai da criança, que gosta de falar no que é bom para Portugal. Até eu próprio, porventura há mais tempo do que ele, também tenho essa preocupação e oriento sempre a minha escrita nesse sentido. E, de facto, o nosso país fica, claramente, a lucrar com o fim dos debates quinzenais, geradores da chicana política e dos soundbites, feitos para abrir os telejornais, como disse, e bem, Rui Rio. Que venham os debates a sério.

O nosso Parlamento continuará a ser, e felizmente que assim é, a casa da democracia. O que se pretende é salvaguardar a sua imagem aos olhos da opinião pública, evitando um desgaste em nada abonatório do seu prestígio. Se Marcelo é um palrador nato, já António Costa e Rui Rio me parecem fazedores. O que não significa que concorde com Sócrates, quando afirma que o fim dos debates quinzenais ficou a dever-se ao facto de os líderes actuais do PS e PSD não serem bons oradores.

António Costa, que não quer o ónus do fim da 'geringonça' a recair sobre o PS, como se vê nas suas intervenções, tem linguagem simples e eficaz, de fácil percepção, que não precisa de ser descodificada. Tem mesmo, em minha opinião, o dom da palavra. E consegue fazer passar a mensagem. Rui Rio, ficando um pouco aquém, se me permitem a ironia, não gagueja a falar e faz-se entender lindamente. Não é o parlamentarismo nem o sistema partidário que se pretende combater. Utilizando uma linguagem chã, à Costa, o que se deseja é que se passe mais das palavras aos actos. Palavras, como diz o povo, leva-as o vento. Os actos, que fazem as obras, esses perduram mais. Como disse o nosso grande e também saudoso Fernando Pessoa, o homem sonha, a obra nasce. E esta deve ser feita com gosto, com amor, sempre que possível. O filósofo Hegel, 'pai' da dialéctica, lembrava que nada de importante se realizou no Mundo sem paixão.

Jornalista

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