Europa, será que os populistas estão certos?

Custa-me dizer isto. Mas afinal os populistas podem estar certos. As elites que nos governam, de Lisboa a Helsínquia, mostram subserviência e algum provincianismo na receção à chanceler alemã. Um primeiro encontro com Merkel é hoje para qualquer líder - ou aspirante a líder europeu - uma prova de tirocínio que dá acesso ao clube exclusivo dos bons alunos: aqueles que merecem referências favoráveis e notas de destaque no acelerado curso do europeísmo e finanças. À direita e à esquerda, não se disputaram as melhores ideias para o aprofundamento da União. Nem tão-pouco as melhores políticas para Portugal. O mais importante foi mostrar quem é o "melhor amigo português" da chan-celer.

Custa-me dizer isto. Mas até os eurocéticos têm uma visão para a Europa. Preferem que não haja nenhuma. E nós, europeístas, que horizonte comum projetamos para a mais bela construção política que a humanidade foi capaz de erguer? Numa Europa que orgulhosamente se diz a maior economia do mundo, o maior mercado único, o maior espaço de liberdade, de tolerância, de partilha e, não menos importante, o de maior solidariedade, sabe a pouco ver para onde caminhamos. Quando o mundo gira nas margens do Pacífico, nós, presos no nosso euro- centrismo, será que somos capazes de compreender que não temos nem liderança nem rumo e se nos mantivermos assim perdemos o futuro?

Esta Europa de paz que, depois da Grande Guerra, conta pelos dedos de uma mão as suas novas empresas globais entre as 500 maiores do mundo. Esta Europa que se satisfaz com um programa da sua Comissão, de inovação e ciência, igual ao de uma empresa como a Apple. Esta Europa berço das mais antigas democracias do mundo, mas que treme a cada eleição num Estado membro. Esta Europa que tem um serviço de ação externa. Que tem mais vozes, e menos afinadas, do que a Eurovisão, que é incapaz de dar resposta em tempo útil a matérias tão estratégicas como as migrações, as dívidas públicas, das famílias ou das empresas. Esta Europa incapaz de ter um sistema de defesa de escala continental que garanta a integridade e inviolabilidade do seu território, estando à mercê de um qualquer presidente americano para sobreviver aos novos autocratas do Leste.

Isto não é estar contra a Europa. É estar pela Europa. Quem se com- praz no passado é que nunca será capaz de cuidar do futuro.

Custa-me dizer isto. Dizemos tantas vezes que Portugal não converge com o resto da Europa, mas esquecemos muitas mais vezes que a própria Europa diverge de todo o mundo, perdendo espaço geopolítico, poder económico e influência cultural. Mas como é que Portugal pode voltar a convergir com a Europa se a sobrevivência do governo depende dos eurocéticos? Não pode! Por mais que o primeiro-ministro tente ser o BFF de Merkel. Olhe-se para os fundos europeus.

Em termos relativos, receberemos menos fundos do que Itália, Grécia ou Espanha. Porquê? Se é verdade que o nosso país tem gasto os dinheiros europeus de forma sofrível, também é verdade que por essa razão continuamos longe da tão desejada convergência. Mas, se assim é, porque recebemos menos? É castigo por não termos dado provas de saber gerir e investir esses pacotes?

Milhares de milhões de euros foram gastos para combater a interioridade e a desertificação. E hoje temos um país mais centralizado e com um interior mais esquecido, que continua a justificar manifestos e movimentos em seu apoio. Já não temos frota pesqueira ou agricultura competitivas. A nossa indústria só agora começa timidamente a olhar para as exportações como solução. Durante 30 anos, investimos em rodovia para garantir que as importações massivas de automóveis alemães teriam onde rodar. Não temos aeroportos ou portos novos. Temos uma ferrovia cada vez mais decrépita. As áreas de influência das duas áreas metropolitanas são das menores à escala europeia, porque fomos incapazes de aproximar o dito interior dos centros geradores de emprego e crescimento. Para que servem "consensos" e "acordos de regime" quando não sabemos bater o pé aos burocratas de Bruxelas que não conhecem nada para além da Grand-Place?

Temos mesmo de dizer isto. Podemos e devemos fazer mais em matéria de política europeia. É uma exigência patriótica para a qual a nossa diplomacia está mais do que preparada. Haja vontade política. É que ser membro da UE é ter direitos e deveres em igual proporção. É exigir transparência nos processos negociais. É garantir que os nossos representantes na REPER têm mandatos claros e inultrapassáveis de negociação. É exigir que se cumpram os tratados e que se implementem me-didas de equilíbrio de critérios. É denunciar que a monitorização dos desequilíbrios macroeconómicos está prevista e tem um quadro sancionatório, e que há países com saldos médios da balança corrente excedentários de mais de 8%, e quantas vezes foram sancionados? Zero! Que escandalosa imunidade é esta? É forçar, sem dogmatismos ideológicos, o debate sobre a mutualização de parte das dívidas, para que o trabalho de especialistas para o fundo de resgate e eurobills não seja manuseado como um texto apócrifo. É exigir que a Europa cumpra os requisitos de operacionalidade no contexto da NATO, olhe para o Atlântico como ativo estratégico e promova a especialização das Forças Armadas de cada Estado membro. É, por fim, criar as condições para que haja um debate verdadeiramente europeu que responsabilize os atores, promova a transparência e, sobretudo, dê aos cidadãos uma agenda programática para os nossos desafios e conquistas coletivos.

Como a mudança não se constrói com os que cristalizaram a realidade nacional e europeia, precisamos urgentemente de novos protagonistas. De novas lideranças que acreditem no modelo democrático liberal e no Estado social europeu. Que acreditem e levem os outros a acreditar. De uma coisa tenho a certeza: no fim do dia, nenhum de nós, europeístas de esquerda ou de direita, gostaria mesmo nada de que os populistas estivessem certos.

Político Social-Democrata

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